A igreja estava toda iluminada

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Éramos bastantes, mas o Saramago não estava. Nem sei sequer se ele ali entraria, pois dada a actual e acesa quezília, talvez o Nobel pensasse várias vezes antes de arriscar a ir a uma casa com cruz à porta, orações e leituras bíblicas.
O Saramago não estava, mas estavam outros que eu por ali nunca tinha visto, não que eu seja uma boa fonte de informação ou referência da Casa do Senhor, pois foi desde que, ainda que sem culpa nenhuma coitado, um padre que Deus tem me atropelou a cadela, menina dos meus olhos, eu, que à altura até era ajudante da missa, comecei a duvidar, não me custa confessá-lo, da bondade divina. Mais tarde, já capaz de raciocínios, ainda que sempre efervescentes, quis o meu processo de crescimento que eu viesse a colocar em questão certezas, instituições e dogmas. Obviamente que a Igreja, tal como muitas outras coisas, era um dos objectos desta irreverência. Contudo, é essencial precisar que a culpa da dúvida nem sempre é do Saramago, uma vez que quando eu tive esses achaques de inquietação moral ainda o provecto escritor se anunciava à literatura de massas com a sua<b><i> Jangada de Pedra. </i></b>
Assim, é necessário da minha parte declarar que, talvez por força de preconceitos, e a exemplo de uma esmagadora maioria dos meus conterrâneos, só vou à igreja em três situações: baptizados, casamentos e funerais. (Há quem diga que faço mal, pois o silêncio de uma igreja vazia é intenso e arrebatador.)
O que fazia então eu, e outros tresmalhados como eu, a uma sexta-feira à noite na igreja de S. Salvador em Ourique? Ouvíamos música. Mais precisamente gospel cantado pelo St. Dominic’s Gospel Choir. A princípio sentíamo-nos intrusos, constrangidos, o ritmo da música a tentar demover-nos da inércia e nós sentados com medo de sermos excomungados, presos aos bancos, envergonhados, a olhar os santos, as velas e o altar. Cada um de nós era um Caim sem marca na testa. Mas a harmonia das vozes era muita, era imensa e lentamente começámos a sacudir a rigidez, a desapertar a solenidade, a pedir desculpa a Jesus Cristo na cruz, a exorcizar os nossos fantasmas e em comunhão não resistimos à tentação, batemos palmas e depois cantámos e depois dançámos e depois rimos. E nessa bela noite, na noite em que não houve missa, nem água benta, nem matrimónio, nem defuntos, nem por isso deixou de haver Igreja, alegria, partilha e fraternidade.
Que Deus nos livre do que fizeram à casa do Senhor, dirão alguns. Pois eu, que já há muito perdoei o padre que me atropelou a cadela, gostei de ver a igreja cheia de algumas ovelhas transviadas a cantar uma coisa belíssima que começa assim:
<i> “I can see clearly now the rain is gone, I can see all obstacles in my way.” </i>

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