A caminho de Almodóvar

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Rui Sousa Santos

médico

Durante muitos anos considerei que François Truffaut era o cineasta do feminino por excelência. Outros cineastas, como Alfred Hichcock ou George Cuckor, souberam lidar bem com actrizes, mas nunca conseguiram perder alguns tiques misóginos, porventura ligados à origem ou à cultura anglo-saxónica. Truffaut não, era um homem com um lado feminino evidente (sem nada a ver com homossexualidade, fique claro), com uma capacidade ímpar de perceber a maneira como as mulheres entendem um mundo conjugado, pensamos nós, homens, no masculino. Durante anos procurei, em FNAC’s, Harrods’, Corte Inglés e quejandos por essa Europa fora, a cópia, em VHS ou em DVD, de uma película de Truffaut, considerada uma obra menor da sua filmografia, chamada <i>L’Homme Qui Aimait Les Femmes</i>, com um fabuloso Charles Denner como protagonista. Encontrei-a, finalmente, pouco tempo depois de deparar com uma tradução italiana do argumento do filme, elaborado, também, pelo próprio Truffaut. Livro e DVD, pelo que representam para mim, são daqueles que não saem lá de casa, por amigo que seja o candidato a pedi-los emprestados.
Tudo isto porque vi, há dias, um filme de um outro realizador europeu, muito popular em Portugal, que me deixou crivado de dúvidas sobre o merecimento desse atributo que eu reconhecia a Truffaut. Falo de Pedro Almodóvar e do seu último filme, <i>Volver</i>. Ao ver esta película, tornam-se evidentes uma série de coisas: percebe-se porque é que os patetas dos norte–americanos nunca conseguiram fazer nada de jeito com essa actriz latina por excelência que é Penélope Cruz, enquanto ela andou a perder tempo, do outro lado do Atlântico, com a nulidadezinha que dá pelo nome de Tom Cruise. Percebe-se que muito do êxito de Almodóvar advém da sua capacidade de brincar, sempre nos limites, com as coisas muito sérias que nos incomodam demais. Entende-se porque é que o humor corrosivo de Almodóvar (veja-se a sequência espantosa do <i>talk show </i>numa lixeira televisiva qualquer por cabo) nos diz porque é que a “Maria”, a “Caras”, a “Hola” e outras porcarias do género são êxitos de vendas, ao transformar o mais absoluto registo <i>kitsch </i>num código de reconhecimento e de identificação imediato. A questão principal é, contudo, o universo quase feminino em absoluto em que Almodóvar trabalha. Os homens, na filmografia deste realizador, têm um papel sempre mais que secundário, são esboços de personagens que rapidamente desaparecem de uma cena dominada, é o termo, pelas mulheres. E como Pedro Almodóvar as entende e se entende com elas! Seja Penélope Cruz, seja Cármen Maura, seja qualquer outra das <i>habituées</i> das películas dos Films El Deseo (assim se chama a produtora dos filmes de Almodóvar), é evidente a cumplicidade e a ternura entre realizador e intérpretes, que se multiplicam até ao limite para conferir a densidade credível a personagens de um barroco inultrapassável. E se há realizador em cuja obra seja fácil entender porque é que sexo e género não são sinónimos, esse realizador é Almodóvar: a personagem do travesti desse hino ao amor que é, nos limites da suportabilidade para o espectador, <i>Tudo Sobre Mi Madre</i>.
Mas a forma, nos filmes de Almodóvar, é o pretexto para um conteúdo sempre potencialmente chocante. E o que é fascinante é o modo como o cineasta se serve do histrionismo, do barroquismo, da simplicidade aparente das personagens que cria, para introduzir, da maneira como o faz, temas de uma importância e de uma densidade totalmente actual. Se em <i>Tacones Lejanos </i>se tratava de prostituição e igreja numa Espanha em fim de ciclo, se em <i>Tudo Sobre Mi Madre </i>o tema era o amor e os conflitos interiores do drama da escolha entre sexo e género, se em <i>Habla Con Ella </i>a questão era a impossibilidade dos amores, se em <i>La Mala Educación </i>se falava do universo concentracionário dos seminários e da sua relação com a homossexualidade, em Volver o tema é o abuso sexual infantil. E é fantástico como, numa família de mulheres em que o único homem presente no início do filme é imediatamente assassinado por uma putativa filha que se vem a verificar ser irmã da própria mãe, se consegue fazer vir à tona um tema tão duro como este, que normalmente provoca lágrimas, que, ao contrário do que acontece com este filme, normalmente não se devem a um riso incontrolado.
Afinal, desculpa François Truffaut, onde quer que estejas, Pedro Almodóvar é que é o grande cineasta do feminino.

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