“Esquerda tem reler realidade e preparar novas ferramentas de ação”

Fátima Teixeira (BE)

A geóloga Fátima Teixeira, de Relíquias (Odemira), é a nova coordenadora distrital do Bloco de Esquerda (BE), substituindo no cargo Alberto Matos. Em entrevista ao “CA”, a dirigente bloquista assume a necessidade de uma “reflexão profunda, não só das linhas orientadoras” como da própria “organização interna” do partido na região, onde tem vindo a perder expressão eleitoral.

O Bloco de Esquerda (BE) tem vindo a perder expressão eleitoral na região. Que irá a nova comissão coordenadora distrital (CCD) fazer para tentar inverter este quadro?

A reconfiguração política internacional e nacional exige-nos uma reflexão profunda, não só das linhas orientadoras como da nossa organização interna. A moção política apresentada pela nova CCD propõe uma reorganização, apoiada num contacto regular e próximo com todos/as aderentes e promovendo iniciativas abertas capazes de disputar ideias no espaço público. As linhas de orientação que nos norteiam, numa situação política instável e em rápida mutação, assentam na rica experiência de intervenção bloquista no Baixo Alentejo, em áreas como o trabalho, o ambiente, a educação, a saúde ou a imigração. E têm por base manifestos e programas que apresentámos nas eleições legislativas e autárquicas do último ano. Somos parte da construção e atualização programática que o Bloco está a preparar a nível nacional, um processo sempre inacabado e aberto a todas e a todos.

Consegue identificar as causas desta quebra eleitoral do BE no distrito de Beja?

Em seis anos, a extrema-direita capitalizou o descontentamento popular e cresceu até se tornar a segunda força política do país, recorrendo à mentira e semeando ódios. Regiões com grande desigualdade de rendimentos, em que a pobreza é gritante, com grande exploração de imigrantes e abandonadas pelo poder central, sentiram ainda mais esta transformação. O Algarve e o distrito de Beja são exemplos claros. Mais ainda, a agenda da extrema-direita – paranoia securitária, racismo, xenofobia e criação de clivagens artificiais – foi normalizada por uma boa parte do espectro político – PSD, IL e PS. Enquanto isso, a esquerda – BE e PCP – perdeu sucessivamente representação institucional, sendo a Assembleia da República o expoente máximo. Acresce a este panorama, a narrativa comum do voto útil para o PS, bem como as campanhas de difamação e calúnia por parte da extrema-direita que têm o Bloco como o principal alvo e que se pessoalizaram na figura de Mariana Mortágua. Vivemos, pois, num período de refluxo que exige da esquerda em geral, e do Bloco em particular, uma capacidade de reler a realidade e preparar novas ferramentas de ação.

Quais são as maiores preocupações do BE face à realidade distrital?

O tema político central no distrito é o das monoculturas intensivas e superintensivas e dos seus impactos socioeconómicos. O modelo de desenvolvimento económico regional assenta neste tipo de culturas (em detrimento de outras opções), que são largamente detidas por fundos de investimento internacionais e recorrem a trabalho imigrante, muitas vezes semiescravo. Do ponto de vista ambiental, sugam os recursos naturais do território e alteram significativamente a paisagem. Além do mais, a agricultura intensiva é o principal fator que acelera as alterações climáticas, ao promover o consumo desregrado de água e uma erosão brutal dos solos. Períodos de seca extrema alternam com as cheias. Há pouco mais de um ano, um “rio de lama” invadiu Ervidel. O Bloco tem estado na dianteira da crítica às monoculturas, enquanto outros partidos, no poder local e nacional, foram agentes políticos ativos na construção e sedimentação deste modelo.

“A agenda da extrema-direita – paranoia securitária, racismo, xenofobia e criação de clivagens artificiais – foi normalizada por uma boa parte do espectro político – PSD, IL e PS.”

E mais?

Em segundo lugar, a crítica à dificuldade atroz na mobilidade das populações, em circular entre municípios e para outros distritos: falamos da fraca qualidade das estradas, da falta de oferta suficiente de autocarros e da quase inexistência de comboios. Este engarrafamento resulta de um modelo de mobilidade começado por Cavaco Silva, continuado por Passos Coelho e mantido pelos governos PS. Numa lógica de consolidação orçamental, o Estado demitiu-se de garantir o transporte coletivo das populações. Fecharam-se linhas ferroviárias, entendidas como pouco rentáveis e apostou-se na construção de autoestradas geridas em parcerias público-privadas. O transporte deixou de ser entendido como um bem público e passou a ser um negócio, com rendas muito lucrativas para os privados. Depois, os níveis de pobreza no território. Os últimos dados disponíveis apontam o Alentejo como a região com maior taxa de pobreza – mais de 17% da população. A reversão desta realidade passa, entre outras medidas, por garantir habitação digna universal, acesso a infraestruturas de educação e saúde, e políticas de higiene urbana não discriminatórias. Por último, o combate pela habitação deve começar pela recuperação do edificado, como forma de garantir em simultâneo esse direito fundamental e contribuir para ultrapassar o estado de degradação dos espaços urbanos das nossas cidades, vilas e aldeias, onde o número de casas devolutas disparou na última década.

Do ponto de vista da organização interna, que planos tem a nova CCD do BE?

A recuperação política passa pela disputa eleitoral e consequente representação, mas pressupõe na base uma acesa disputa das ideias e a capacidade de penetrar o imaginário e o discurso populacional. Esse caminho terá de ser sensível às realidades locais e regionais, exigindo que o Bloco de Esquerda conheça bem o território e a mentalidade das pessoas. Tendo por base as prioridades políticas já referidas, o exigente processo de reorganização interna passará por uma combinação de esforços. Deixamos algumas pistas: reuniões políticas regulares e abertas ao público, em diversos concelhos e freguesias, criação e/ou apoio a eventos capazes de atrair novas pessoas, contacto regular e proximidade com os militantes, articulação entre a coordenadora distrital e as concelhias de Beja e Odemira, apoio aos restantes núcleos concelhios e extensão da rede bloquista a outros concelhos, e a aposta na revitalização e articulação das redes sociais do Bloco.

Como avalia o BE a ação do Governo PSD/CDS-PP na região?

A principal característica do atual Governo é a apropriação e normalização do discurso da extrema-direita e a insistência em retirar direitos laborais, apesar da sua forte contestação expressa na greve geral. Sendo a região dependente de trabalho imigrante ultraprecário e sinalizada pelo RASI por crimes de tráfico humano, a ação do Governo tem contribuído para um clima de desconfiança e piores condições de integração social. Na habitação, o distrito de Beja tem dos preços das rendas mais elevados do interior do país, com tendência a piorar e as medidas do Governo têm agravado a situação, facilitando os despejos. Nos transportes e acessibilidades, prometem-nos uma autoestrada (A26) que não tem princípio nem fim. Quanto à ferrovia, acabámos de saber que a eletrificação da linha Casa Branca-Beja, com conclusão anunciada para 2032, não inclui uma ligação ao aeroporto. E a reabertura da linha Beja-Funcheira, com ligação ao Algarve, não está sequer calendarizada. Ou seja, a propaganda não bate certo com a realidade!

EM DESTAQUE

ULTIMA HORA

Role para cima