Basílica Real de Castro Verde. “Ver este teto é uma experiência única”

Os olhos do padre Luís Miguel Fernandes iluminam-se ao olhar para cima. “Ver este teto como os nossos antepassados o viram logo quando ele acabou de ser pintado é, sem dúvida, uma experiência única”, reconhece o pároco, ao vislumbrar as cores agora garridas do teto em madeira pintada, que cobre toda a nave central da Basílica Real de Castro Verde.

O milagre da Batalha de Ourique, em que D. Afonso Henriques derrotou os cinco reis mouros e afirmou Portugal, domina todo o painel, pintado no século XVIII por António Pimenta Rolim. Com o passar dos anos, esta peça única no sul do país (e considerada a mais trabalhada a nível de pintura e de arte de toda a extensão da Diocese de Beja) foi perdendo a sua imponência. A pintura perdeu cor e brilho, as figuras ficaram esborratadas e a madeira carcomida.

As obras de requalificação para colocar termo a esta quadro de decadência arrancaram há pouco mais de um ano, em agosto de 2021, e ficaram praticamente prontas nos primeiros dias deste mês de setembro (falta apenas a iluminação interior, que a Câmara Municipal está a tratar).

O investimento ronda os 310 mil euros e resulta de uma parceria entre a Fábrica da Igreja Paroquialda Freguesia de Castro Verde, a Câmara Municipal e a Direção Regional de Cultura do Alentejo, sendo comparticipado em 85% por fundos comunitários, através do programa Alentejo 2020.Os restantes 15% do valor da empreitada, referentes à comparticipação nacional, foram assumidos pela empresa mineira Somincor, ao abrigo da Lei do Mecenato.

“O trabalho foi minuciosamente bem feito e agora os nossos olhos sobem para lá [para o teto da Basílica Real]. É uma experiência mesmo única e uma alegria para todos”, diz ao “CA” o padre Luís Miguel Fernandes, que gostaria que a “inauguração” da renovada Basílica Real fosse a 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição. “Depois veremos como vai ser a questão do culto”, acrescenta.

Basílica Real de Castro Verde. “Ver este teto é uma experiência única"

Os trabalhos de reabilitação do teto em madeira pintado da Basílica Real de Castro Verde estiveram a cargo do Atelier Samthiago, de Viana do Castelo, que durante mais de um ano teve técnicos a trabalhar no local, (quase sempre) a 16 metros de altura.

“O trabalho consistiu em estabilizar e desinfestar as madeiras, remover aquelas que já estavam muito deterioradas e que tiveram de ser substituídas por madeiras da mesma espécie, mas enxertada nas anteriores. Ou seja, primeiro removemos, depois reconstituímos o volume e, por fim, reconstituímos a policromia, ou seja, a pintura”, explica ao “CA” Pedro Madeira, que coordenou a intervenção.

Este responsável reconhece que foi um trabalho quase “de ourives”, nem sempre fácil de realizar pelo avançado estado de degradação de algumas zonas do teto. “Isto estava muito degradado, pois as igrejas tinham sempre como iluminação velas, o que faz muito fumo e enegrece as coisas”, justifica.

Ainda assim, continua, “a maior dificuldade” foi haver pouco espaço para se conseguir “limpar por cima da camada policromada”. “Tivemos de andar de gatas por cima deste teto e remover o lixo todo que havia, com centenas de anos e muitos animais mortos. Tirámos lá de cima nove metros cúbicos de lixo, entulho e detritos”, assevera.

Um trabalho que Pedro Madeira considera justificado, tendo em conta a valia artística da pintura que estava a perder-se “às mãos” do tempo. “Estava tudo escurecido, degradado, e agora tem-se uma leitura bastante melhor. Vê-se que foi um teto muito trabalhado, pois este brasão central tem floreados e molduras, ou seja, tem uma pintura como se fosse arquitetura, que era uma técnica que se usava bastante nos séculos XVII e XVIII”, observa.

Basílica Real de Castro Verde. “Ver este teto é uma experiência única"

Agora que os trabalhos estão praticamente concluídos, o presidente da Câmara de Castro Verde reconhece que a requalificação do teto da Basílica Real “é muitíssimo emblemática”, sendo a satisfação da autarquia “a satisfação de toda a comunidade”.

“Desde 2017, em várias etapas, a Basílica passou a ter a dignidade que merece e esta magnífica intervenção no teto pintado, é algo que merece muita admiração: pela grandiosidade histórica do trabalho e pelo orgulho de termos este monumento nacional em Castro Verde”, afirma António José Brito.

O autarca diz mesmo que a classificação da Basílica Real de Castro Verde como monumento nacional “é o ‘corolário’ de todo o trabalho” que tem sido feito e “a prova da grande dimensão e importância deste processo de requalificação”. “Isso engrandece a Basílica e a vila de Castro Verde no plano cultural e turístico”, conclui.

Basílica Real de Castro Verde. “Ver este teto é uma experiência única"

A requalificação da Basílica Real de Castro Verde resulta de um trabalho de parceria que a Paróquia manteve com diversas entidades, nomeadamente a Câmara Municipal, refere o padre Luís Miguel Fernandes.

“Todo o apoio da Câmara Municipal foi importantíssimo, fundamental, indispensável e único”, sublinha o pároco, lembrando que o atual executivo da a autarquia, liderado por António José Brito, sempre “mostrou essa preocupação e tem sido sempre fiel em ajudar a requalificar esta igreja”.

A intervenção no teto em madeira pintada arrancou no verão de 2021 e constitui a segunda de três fases do projeto de requalificação da Basílica Real de Castro Verde.

A primeira fase, em 2019, contemplou a limpeza manual do telhado, arranjo de portas e janelas, e pintura total do edifício, num investimento superior a 65 mil euros, comparticipado pela Câmara de Castro Verde, pela União de Freguesias de Castro Verde e Casével e pelo programa BEM – Beneficiação de Equipamentos Municipais, criado pelo Governo.

Já a terceira fase das obras, avaliada em mais de 50 mil euros e que abrangia o coro alto e o nartéx, está praticamente concluída. Neste momento, e segundo o padre Luís Miguel Fernandes, falta apenas terminar os trabalhos em curso na fachada da Basílica Real, por forma a rematar a intervenção no coro alto.

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Correio Alentejo

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