Língua azul causa desânimo e prejuízos no Campo Branco

A contrastar com o dia radioso e a temperatura amena, três ovelhas jazem moribundas junto a uma cerca, afastadas do rebanho que se acolhe à sombra de um pinhal. Perto delas, o agricultor Jorge Lourenço não esconde o seu desânimo por mais duas “baixas” no seu efetivo por culpa do vírus da língua azul.

“Os animais adoecem e nós andamos tristes e preocupados. Temos muito trabalho e depois é um prejuízo grande”, conta este produtor pecuário de Castro Verde ao “CA”, enquanto vai afagando o dorso de uma das ovelhas doentes, que não esboça qualquer tipo de reação.

No Monte dos Gregórios, a escassos quilómetros da vila de Castro Verde, existem atualmente cerca de 30 ovelhas e borregos doentes com a língua azul. “É um grande prejuízo. Vamos-lhe dando vacinas para atenuar a doença, pois não há outra hipótese. E vamos ver o que iremos fazer futuramente”, acrescenta Jorge Lourenço.

A exploração desta agricultor é uma das quase 240 do Campo Branco, onde já foram registados casos de animais com febre catarral ovina, uma doença viral – de notificação obrigatória – mais conhecida como doença da língua azul e que afeta os ruminantes.

Desde o final do mês de agosto que o número de casos de ovinos com língua azul se têm vindo a multiplicar nesta região, que abrange os concelhos de Castro Verde, Almodôvar, Ourique e parte do de Aljustrel, com milhares de animais afetados pelo vírus, sobretudo pelo seu serotipo 3 e apesar de vacinados.

“Na nossa região, o quadro deste ano é bem mais complicado do que foi o ano passado”, reconhece ao “CA” Ana Rita Simões, médica veterinária da Associação de Agricultores do Campo Branco (AACB), com sede em Castro Verde, que acrescenta: “Em 2024 não tivemos nem a mortalidade nem a morbilidade que estamos a ter este ano”.

É necessário “que haja uma sensibilidade por parte dos responsáveis políticos” para dar “uma ajuda aos produtores” afetados, defende o presidente da Associação de Agricultores do Campo Branco.

O número crescente de rebanhos com casos de língua azul no Campo Branco leva o presidente da AACB, António Aires, a temer pelo futuro próximo de muitas explorações da região, sobretudo do ponto de vista económico.

“Temos animais com muitos abortos e muitos borregos mortos, o que vai afetar muito o rendimento das explorações no próximo ano”, diz o dirigente ao “CA”, acrescentando que “os prejuízos são grandes”.

Por isso, diz, é necessário “que haja uma sensibilidade por parte dos responsáveis políticos” para dar “uma ajuda aos produtores” afetados.

Estas reivindicações são acompanhadas pela Federação das Associações de Agricultores do Baixo Alentejo (FAABA), da qual faz parte a AACB, que no final de outubro enviou uma carta ao ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, a reivindicar medidas de apoio para o setor agropecuário, nomeadamente para os casos de língua azul.

O mesmo fez o deputado do PS eleito por Beja, Pedro do Carmo, que reuniu com a AACB e visitou a exploração de Jorge Lourenço, a 3 de novembro, questionando no mesmo dia, já no Parlamento, o ministro da Agricultura sobre este problema.

Segundo Pedro do Carmo, é necessário que o Governo adote “medidas excecionais” para “uma situação excecional”, uma vez que, “efetivamente, a vacina não tem conseguido resolver o problema”.

“Os rebanhos estão a definhar, uma vez que o número de abortos é muito significativo”, indicou Pedro do Carmo em declarações ao “CA” no final da visita, lembrando que muitos dos borregos que deveriam ter nascido nesta altura seriam para comercializar no Natal, “um momento alto onde os produtores conseguem rentabilizar as suas explorações”.

Por isso, continuou, “se não houver realmente uma situação mais fortalecida, mais robusta, continuamos a ficar muito prejudicados no interior, uma vez que o desânimo dos produtores é muito significativo”.

O deputado socialista defendeu ainda que tem de haver um apoio “para quem ainda resiste, para quem ainda tem rebanhos, para quem ainda cria gado e para quem ainda se mantém no interior do país”.

Partilhar

Facebook
Twitter
WhatsApp
Correio Alentejo

Artigos Relacionados

Role para cima