Idosos e a Covid-19. “Tem sido uma guerra sem tiros!”

Sentado comodamente numa cadeira no Centro de Convívio de Ourique, José Guerreiro, 82 anos, está quase partida para casa e a fazer as “contas” à água que tem pela frente naquela manhã chuvosa. Quando o fizer já “levará” consigo a primeira dose da vacina contra a Covid-19, que lhe foi administrada pela enfermeira meia-hora antes e lhe permite encarar o futuro com outra esperança… mas o mesmo cuidado!

“Estou mais tranquilo, mas temos de manter o mesmo ritmo”, diz ao “CA” este agricultor de Ourique, já reformado, acrescentando em tom de alerta: “É que a vacina ajuda, mas não cura e não evita totalmente” a Covid-19.

Homem habituado à lavoura, José Guerreiro conta que já só sai de casa “para ir às compras ou ao campo”, onde o filho tem os animais. É por isso que olha para os tempos actuais com tristeza, esperando que a partir de agora tudo mude. “Tenho saudades da liberdade e de não haver esta doença, que tem sido uma guerra sem tiros, sem sabermos onde estão os inimigos”, frisa.

José Guerreiro foi um dos cerca de 150 idosos que foram vacinados contra a Covid-19 em Ourique na manhã da passada quinta-feira, 25 de Fevereiro. O processo de vacinação no Baixo Alentejo arrancou um dia antes, pela mão da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (ULSBA), com centros de vacinação em todos os concelhos. No total, era previsto serem vacinadas na primeira semana desta fase 3.146 pessoas com mais de 80 anos ou com 50 anos e outras patologias associadas.

Maria Francisca Luz, que tem 84 anos e vive em Campo de Guerreiros, no concelho de Ourique, foi uma das chamadas pela ULSBA. Acabada de vacinar, esta antiga cozinheira admite ao “CA” que se sente “mais segura” depois de longos meses passados entre as quatro paredes de casa.

“O meu filho é que faz as compras e quando venho à médica ele é que vai comigo”, conta Maria Francisca, que nunca pensou “passar por uma coisa destas”, apesar das histórias ouvidas da boca da mãe sobre a epidemia da febre pneumónica em 1918. “Ela dizia que era uma coisa horrível e agora acabei por também conhecer isto. Mas agora é mais difícil porque é no mundo inteiro”, afirma.

Também Ramiro Nobre Vilhena, 91 anos, sentado metros ao lado, assume que nunca pensou passar “por uma coisa destas”.

“Tenho estado em casa e vou saindo quando posso”, revela ao “CA”, já depois de ter levado a primeira dose da vacina.

Idosos e a Covid-19. “Tem sido uma guerra sem tiros!”

“A vacina vai ajudar”

Em Castro Verde o centro de vacinação contra a Covid-19 está instalado no pavilhão da EB 2,3 Dr. António Francisco Colaço, por onde o “CA” também passou na manhã de quinta-feira, 25. Na sala de espera, já depois de ter recebido a primeira dose da vacina, estava António Custódio, 84 anos, antigo trabalhador dos caminhos-de-ferro.

“Agora sinto-me mais seguro”, confidencia este castrense, não escondendo que a pandemia o tem assustado. “Tenho estado estes meses em casa, sem sair à rua”, garante.

Bem mais “normal” tem sido a vida de Jonas Esperança, que apesar dos seus provectos 87 anos continua a sair de casa para “tratar do gado, olhar pelos bichos e mudá-los de uma cerca para outra”.

“No campo é menos perigoso”, diz este morador da aldeia de Aivados, garantindo sentir-se bem com a vacina. E mais seguro? “Por enquanto não é mais que isto, que a força é sempre a mesma”, responde com boa disposição.

Metros adiante, à espera da hora de voltar a casa, está Maria Amélia Sousa, 85 anos, que vive em Castro Verde. A vacina, diz, não custou nada a levar, mas a sensação de segurança é completamente diferente.

“Penso que agora estamos mais seguros e que esta vacina vai ajudar”, frisa Maria Amélia, que tal como todos os outros entrevistados pelo “CA” pouco (ou nada) tem saído de casa. “Evito sair, pois temos crianças em casa e não podemos andar por aí. Já basta a mãe, que dá aulas”, acrescenta.

Mas a partir de agora, Maria Amélia Sousa espera que tudo seja diferente… para melhor. “Penso que agora vai ser diferente e que vai melhorar, se Deus quiser! Não sabemos o futuro, mas pode ser que isto melhore agora um bocadinho”, conclui esperançosa.

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Correio Alentejo

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