Duas décadas exigentes, de responsabilidade e muito orgulho
E assim num ápice passaram-se 20 anos! Foi a 24 de março de 2006 que o “Correio Alentejo” chegou pela primeira vez às bancas, com a ambição de ser um jornal plural, independente e moderno. Um jornal com forte ligação às tradições e uma visão de futuro. Um jornal onde todos tivessem voz e ninguém fosse colocado “à margem”.
Ao longo destas duas décadas deparámo-nos com exigências de todo o tamanho e enormes provações. Desde logo, a dificuldade que é afirmar um projeto jornalístico de qualidade e inovador e, simultaneamente, garantir a estabilidade financeira do mesmo num território de baixa densidade e com poucas empresas.
Conseguimo-lo à custa de muito esforço, imensa dedicação e grande imaginação, mas também por via de enormes sacrifícios e a total colaboração de todos os que estiveram sempre a nosso lado: os nossos leitores, os nossos anunciantes e os nossos colaboradores.
Nestes 20 anos, o “CA” enfrentou muitos obstáculos e sofreu várias mudanças. Já fomos semanário, passámos a mensal e, desde 2014, que temos edição quinzenal. Passámos por uma grave crise financeira que empurrou o país para a bancarrota. Enfrentámos dias de reclusão “impostos” por uma pandemia mundial nunca antes vista. E mesmo assim, nunca baixámos os braços e soubemos sempre superar as dificuldades e os contratempos.
Perante as dificuldades, inovámos. Diante obstáculos, apostámos na diferença. Confrontados com problemas, apresentámos produtos distintos. Estivemos muitas vezes à frente do tempo, nunca abdicando do rigor e contando sempre com o empenho abnegado de todos aqueles que já passaram por esta casa.
É por isso que, neste momento de celebração, não podemos deixar de lembrar (e elogiar) a visão estratégica de António José Brito, que fundou o jornal e foi decisivo na sua afirmação regional. Mas também assinalar a dedicação do Pedro Moreira, do Ruben Ramos, do Dário Brissos, do Fernando Cotovio, do José Tomé Máximo, do João Luís Oliveira, do Rui Santos ou do Daniel Brito, entre muitos outros.
Todos eles, à sua medida, ajudaram (e ajudam) a fazer o que é o “CA” nos dias de hoje: um meio de comunicação credível e essencial ao Baixo Alentejo, mesmo que muitos tentem “tapar o sol com a peneira” da maledicência, da mesquinhez e da tacanhice.
Cumpridos 20 anos, renovamos o nosso compromisso com os leitores, reiterando a vontade de continuar a fazer o jornal a que se habituaram. Mas o futuro terá de ser, natural e inevitavelmente, feito de mudança.
É por isso que, pela primeira vez em duas décadas, vamos aumentar o nosso preço de capa (de 0,70€ para 1,00€) e de assinatura anual (de 20€ para 25€). Trata-se de um aumento simbólico, mas necessário para fazer face ao aumento de custos registado desde 2006.
A par disso, queremos ampliar a nossa presença na Internet, seja através do nosso site seja por via das redes sociais, e inovar no jornal que, de 15 em 15 dias, chega às bancas.
Ao fim de 20 anos, temos ainda mais vontade de continuar a trilhar este caminho. Agora com o orgulho do percurso feito e a responsabilidade de continuar a oferecer aos nossos leitores um jornal de excelência.
Carlos Pinto | diretor

Um amor nas nossas vidas
Não me lembro do dia daquele mês de Novembro de 2005. No estreito gabinete, o Chico do Ó Pacheco convidou-me para me sentar com ele numa mesa onde também estava o então presidente da Câmara de Serpa. João Rocha acumulava, na altura, essa função com a liderança do conselho directivo da AMBAAL, a então associação de municípios do Baixo Alentejo e Alentejo Litoral… que hoje é a CIMBAL!
A conversa foi curta. Rocha informou-me, com tom lacónico e seco, que não iria continuar como director do “Diário do Alentejo” (DA). Sem surpresa! O PCP nunca tinha perdoado a minha chegada à direcção do jornal em Setembro de 2002, depois de ter “controlado”, durante décadas, com “mão de ferro” e a seu favor, o principal jornal da região.
Saí triste do gabinete. Pela insensibilidade e completa frieza da comunicação! Eu estava convicto, tal como estou ainda hoje, de que o “DA” tinha passado três dos melhores anos editoriais da sua história. E mesmo no plano administrativo e empresarial, tínhamos muito de positivo para mostrar.
Nos dias seguintes, a sociedade civil e política do Baixo Alentejo reagiu. Empresários relevantes da região, dirigentes associativos, jornalistas (incluindo os do “DA”!), médicos, professores… quase 70 pessoas assinaram um documento a exigir o “DA” com a linha editorial livre, plural e democrática que tinha apresentado desde 2002. Todos os deputados eleitos na região e todos os líderes partidários (PS, PSD, CDS, Bloco de Esquerda) subscreveram o documento.
Todos… menos o PCP. Incapazes de perdoar os “ventos de mudança” do novo “DA” e querendo voltar aos gloriosos dias do jornal sectário que havia mudado em 2002, a “velha guarda” da Rua Acha mostrou que não tinha perdoado. A vingança serviu-se fria.
MÃOS À OBRA. Lançado para o desemprego e desiludido com a injustiça “dos sempre justos”, tentei perceber que caminho seguir. E percebi que não podia desperdiçar o tão grande alento que tanta gente me estava a dar.
Se tinha sido capaz de o fazer no “DA”, com escassos 35 anos de idade, estava pronto para o fazer noutro lado qualquer.
Era Dezembro de 2005. Em poucos dias “desenhei” tudo o que queria fazer a seguir! Tinha uma empresa editora, a Jota CBS, que vinha dos tempos do “Topo Sul” e “O Campo”. A família incentivou-me e deu-me força (obrigado, Paula!). Encontrei no banco BCP um aliado. Fui à procura de uma loja para ser a redacção e viajei para o Porto para falar com o Sérgio Braga, para fazer o desenho gráfico. Dias depois, juntámo-nos em Pombal para apreciar o trabalho dele.
Pelo meio, desafiei o actual director, Carlos Pinto, para integrar a redacção. Com 25 anos, ele, tal como eu, acabava também de ser dispensado do “DA”. Seguimos juntos e fomos comprar móveis para a redacção no IKEA de Alfragide. Os dias corriam sem travão e nas nossas cabeças fervilhava a ideia de fazer um jornal novo, competente e rigoroso. Com melhores ideias e jornalismo desempoeirado. Surpreendente e plural.
O TÍTULO E A EXIGÊNCIA. Nessa altura, eu andava a ler com frequência o “Courrier Internacional”. E gostava do nome. Por outro lado, achava que podíamos fazer um jornal capaz de seduzir os leitores com um “estilo” popular q.b., perto das pessoas e com assuntos “de cada rua e cada aldeia”. Assim nasceu o “Correio Alentejo”.
No meio desta vertigem sonhadora, eu sabia que era preciso ter uma acção comercial audaz e persistente. As primeiras pessoas convidadas para esse trabalho foram “um tiro ao lado”. Por isso, desafiei o Fernando Cotovio, meu amigo desde os 15 anos e de todas as horas, para ser o rosto comercial do projecto. Na verdade, ele conhecia tudo o que já estávamos a fazer, por dentro e por fora.
Pelo meio, já tinha convidado o Pedro Moreira para assegurar a parte mais técnica. E dado oportunidade ao Ruben Ramos que, depois de entrevistado, entrou na redacção por via de um estágio do IEFP. O José Tomé Máximo, companheiro de tantas e tão longas tardes e viagens, completou a equipa para assegurar a fotografia.
HORAS MÁGICAS. O dia tão desejado foi definido: 24 de Março de 2006. Os dias que o antecederam foram… alucinantes! Dessas horas tão mágicas, nenhum de nós cedeu por um instante. Fomos solidários, divertidos e comprometidos.
Aos poucos, o “Correio Alentejo” ganhou forma. O Sérgio Braga veio do Porto para ajudar a paginar a primeira edição. Cada instante foi delicioso, porque estávamos ali com compromisso total.
Fechar a primeira edição foi duro. E durou até tarde! Quando remetemos os PDF para a Gráfica Funchalense (perto de Loures), respirámos de alívio. Na manhã do dia seguinte, muito cedo, eu e o Carlos Pinto fomos buscar a edição, empacotada em maços de 200 unidades, à “Suratesta”, perto de Beja, onde a VASP entregou o jornal.
Ninguém viu… mas quando toquei levemente, e cheirei, o nº 1 do “CA”, vieram-me lágrimas aos olhos. O sonho estava a ganhar vida, fruto de tanto trabalho de tanta gente. Era a foz de tanta solidariedade e compromisso de quem tanto torceu por nós.
Seguiram-se dias vertiginosos. Muitos dias e muitas semanas! Aos poucos, o “CA” ganhou o seu espaço. Cresceu e afirmou um estilo diferenciado.
A sustentabilidade financeira foi sempre o mais exigente. O mercado publicitário fraco e a desconfiança num projecto novo criavam naturais resistências. No entanto, cumpríamos etapas. Assim tem sido até hoje!
PERSEGUIR O SONHO. Em 2013, desafiado pela política, deixei a direcção do jornal e fiquei somente como administrador.
O Carlos Pinto estava pronto para assegurar a função… muito melhor do que eu!
Em Outubro de 2017, eleito presidente de câmara, cedi a propriedade da empresa Jota CBS ao Carlos. Mas nunca perdi o gosto por um filho que fiz nascer!
Agora, este “amor das nossas vidas”, pelo menos para aqueles que têm com o jornal uma relação umbilical, está a soprar “vinte belas velas”. O futuro é já ali e a maturidade do “CA” já é “um posto”. Mas, tal como nos dias iniciais e nos terríveis dias da “troika” (quando passou de edição semanal a mensal e, depois, para quinzenal… nunca mais voltando a semanário!), há desafios muito exigentes e complexos.
Desde logo (como sempre!) a sustentabilidade económica mas, naturalmente, também a viabilidade da distribuição em banca, a adaptação aos novos públicos e, sobretudo, os desafios do digital em diferentes plataformas.
Será isto um desafio ainda maior do que aquele do primeiro dia, com a edição inicial que tanto nos galvanizou? Tenho a convicção de que será. E também tenho a certeza de que só essa ilusão, na exacta medida desse dia inicial que fez o “CA” construir a sua história, será agora a fonte de todos os sonhos para o futuro que está à porta.
António José Brito | fundador e primeiro diretor do “CA”








