Uma história exemplar

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

José Filipe Murteira

professor do Ensino Secundário

Durante esta semana, a selecção sub 18 de Portugal esteve em Beja, onde realizou um estágio, no qual se integraram dois jogos com a sua congénere da Noruega. De resto, tem sido frequente, nos últimos anos, a presença de selecções nacionais e a realização de jogos em Beja e em outros concelhos do distrito (no último caso, em Moura).
Estes estágios que têm sido mais frequentes desde 2006 não podem ser desligados de um facto que se passou nesse ano e que foi a presença da Selecção Nacional que ia disputar o Mundial na Alemanha, num estágio de 15 dias em Évora.
Trata-se, sem dúvida, de uma história exemplar, no que respeita às influências político-partidárias sobre decisões que ultrapassam, por vezes, o razoável.
A história conta-se em poucas palavras: a marcação desse estágio para Évora tinha um “pequeno” senão, que era a inexistência de um complexo desportivo que assegurasse a sua realização em condições adequadas. Sem entrar em pormenores, refiro apenas a forma como se resolveu o problema: o Lusitano de Évora entregou o seu campo (Estrela) a um grupo imobiliário, que se comprometeu a construir um complexo desportivo, numa herdade a mais de três quilómetros da cidade, onde seria realizado o estágio da selecção.
Surgiram, entretanto, alguns “problemas”, um dos quais o parecer da CCDR Alentejo, no final de Janeiro, que considerou a localização desse complexo como “inadequada”. Esse parecer, que caiu como uma bomba, fez movimentar vários personagens locais com peso político no Governo de então, no sentido de que o mesmo fosse alterado, o que veio a acontecer, algum tempo depois: afinal, a “inadequação” era apenas do ponto de vista técnico, já que, do ponto de vista jurídico, não violava a legislação em vigor, pelo que não era impeditiva da construção. Um eufemismo que veio mesmo a calhar.
O campo relvado, balneários e bancada foram feitos num prazo recorde de três meses, a selecção treinou lá e fez alguns jogo no final do mês de Maio, partindo depois para a Alemanha.
No decorrer desta complexa história, a Câmara Municipal e a Associação de Futebol de Beja contactaram a Federação Portuguesa de Futebol, apresentando a cidade como alternativa caso não se resolvesse o problema em Évora. Na sequência desse contacto, foi realizada uma visita, na qual participaram, em representação da FPF, um membro da sua direcção e alguns técnicos, nomeadamente Flávio Teixeira (Murtosa), um dos adjunto de Scolari.
Qual foi, então, o resultado dessa visita? Que Beja tinha todas as condições: um campo de futebol relvado (considerado em bom estado), um outro sintético, uma piscina aquecida coberta e, mesmo ao lado destes equipamentos, um hotel de quatro estrelas, que iria ser em breve (Abril de 2006) inaugurado, com um ginásio devidamente equipado. O único ponto a melhorar eram os balneários do Complexo Fernando Mamede, que precisavam de obras de beneficiação.
O problema é que, não obstante estar à vista de todos o que era óbvio, “forças poderosas” trabalharam para que o estágio fosse para Évora, mesmo que isso não passasse de um capricho que, além de custar caro, iria ter consequências negativas uns anos depois.
Basta ler as palavras amargas do actual presidente do Lusitano de Évora (que este ano não tem futebol sénior), clube histórico que no passado dia 11 completou 100 anos: “O Lusitano não tem neste momento nem dinheiro nem património” (registo.com.pt) ou “o início do descalabro tem a ver com o estágio da Selecção Nacional em Évora, em 2006. A direcção em funções deixou-se influenciar e fez tudo para vender os terrenos do Campo Estrela a troco do Complexo Desportivo da Silveirinha, que mais não tem que um relvado, um balneário e uma bancada com pouca qualidade” (abola.pt).
Enquanto isso, nós por cá não tivemos o estágio em 2006, mas continuamos com o nosso complexo desportivo (com mais um campo sintético e com a pista de atletismo a precisar de remodelação), algo que a cidade vizinha não dispõe ainda. Tal como temos, o que devia aumentar a auto-estima dos bejenses, outros equipamentos que os nossos amigos de Évora (ainda que Património da Humanidade) há muito esperam: uma biblioteca municipal de referência, um teatro com uma programação regular (incluindo o cinema), um bom parque de feiras que acolhe, nomeadamente, um dos maiores certames nacionais, a Ovibeja.

<b>Nota de rodapé 1. </B>Caso idêntico ao de 2006 parece estar a passar-se com a Embraer, fábrica brasileira instalada em Évora : com as alegadas dificuldades para transportar os componentes que aí vão ser fabricados, não teria sido mais lógico construí-la em Beja, com um aeroporto à porta e uma auto-estrada até Sines, Setúbal e Lisboa?

<b>Nota de rodapé 2. </b>Esta crónica não significa qualquer preconceito negativo para com Évora e os seus habitantes. De resto (isto fica para outra crónica), caso haja um dia a tão necessária regionalização, defendo a existência de uma única região, que integre, em pé de igualdade, todos os habitantes e localidades do Alentejo (o que não tem acontecido até ao momento, como se pode ver por estes dois e por outros exemplos similares).

<b>Nota de Rodapé 3. </b>Para os mais distraídos e/ou esquecidos: os equipamentos de Beja a que atrás me referi foram todos construídos antes de Outubro de 2009, ou seja, antes da “democracia” chegar com a “Beja Capital”. Sem quaisquer favores ou influências de lobies político-partidários, de um lado ou do outro do chamado “centrão”.

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