Para lá das presidenciais

Sexta-feira, 5 Fevereiro, 2021

Vitor Encarnação

Escritor

O tempo que passou sobre a realização das eleições para a Presidência da República já permite ter uma opinião mais concreta relativamente aos resultados e às consequências desse ato eleitoral para a definição do nosso futuro coletivo.
Na minha condição de cidadão livre e minimamente atento, ávido leitor de passados e de presentes, curioso em relação à novidade, vou olhar com mais atenção para o fenómeno André Ventura/Chega, que são uma e a mesma coisa, mas que a partir de agora vão necessariamente ter de deixar de ser.
André Ventura precisa de saber quanto vale a sua pessoa e quanto vale o Chega. E de acordo com os resultados, para um homem/partido que chegou agora, vale indubitavelmente muito.
Neste momento há um facto que os números, quase meio milhão de votos, mostram: o homem e o seu partido vieram e querem ficar.
Primeiro que tudo interessa-me compreender como é que este homem/partido, que representa o contrário dos meus valores, das minhas vivências e de todos os meus princípios humanistas, consegue obter o voto de quase meio milhão de portugueses.
Primeira pergunta: será que 496.583 portugueses, entre os quais 8.490 baixo-alentejanos são fascistas? Afirmar uma coisa dessas é um absurdo, um delírio, uma abordagem errada, uma completa falta de seriedade. Segunda pergunta: será que todos estes votantes exerceram o seu direito e o seu dever em consciência, esclarecidos e seguros depois de lerem o programa eleitoral do homem/partido? Obviamente que não, a percentagem que o fez terá sido extraordinariamente diminuta. Terceira pergunta: será que a maior parte dos votos obtidos são fundamentalmente votos de protesto, muitos deles vazios de convicção, depositados no homem/partido que “vem pôr ordem nesta vergonha”? Não tenho dúvidas que sim. Quarta pergunta: mesmo que dele discordemos totalmente, o discurso foi eficaz? A forma e o conteúdo resultaram? As pessoas anónimas, os cidadãos comuns reviram-se nesse estilo e nessas propostas? Sem dúvida que sim.
E essa constatação, sublinhe-se, é um caso de estudo.
E esse estudo tem de começar imediatamente a ser feito e em primeiro lugar pelos partidos tradicionais. Os partidos deverão forçosamente tirar os olhos do umbigo e tentar compreender porque é que tanta gente já não os quer ouvir, porque é que tantos portugueses já não se reveem nos seus discursos e nas suas políticas.
Em segundo lugar, todos os intérpretes institucionais da democracia têm de fazer uma profunda reflexão e concluir se a sua interpretação dos princípios constitucionais, das liberdades, direitos e garantias estão a ser bem aplicados uniformemente em todo o território nacional, se a sua responsabilidade de representantes do povo e de guardiões da democracia, sem compadrios, sem esquemas, sem exclusões em vários domínios económicos e sociais, sem regiões votadas ao esquecimento, está a ser exemplarmente cumprida. É preciso não esquecer que a democracia só existe se tiver bons intérpretes, se não os tiver ela transforma-se noutra coisa qualquer, mas democracia plena e de facto não será com certeza.
Em terceiro lugar, a educação e a transmissão de conhecimento, quer seja através da escola ou através da família, não podem descurar e desvalorizar o humanismo, a filosofia, a história, a antropologia, a sociologia, a literatura. Perder a memória e perder a faculdade de pensar e questionar é o primeiro passo para a ignorância, para a passividade e depois para a submissão.
A fraqueza dos vários intérpretes da democracia, nacionais e locais, do sistema educativo e da educação para a cidadania abrem brechas perigosas de onde surgem figuras troando verdades e soluções simplistas. Os demagogos e os populistas são especialistas em passes de mágica verbal, em arregimentação de descontentes com emoções à flor da pele, assumidamente impolutos e virgens de esquemas, fazem uso de discursos manipuladores de paixões exacerbadas, são peritos em acusar e apontar problemas e falhas, mas não são muito dados a envolverem-se em soluções conjuntas, a trilhar caminhos de diálogo ou assumir compromissos. Olham para o sistema político como um mal absoluto e entendem-se a si próprios como os únicos salvadores do povo, da pátria, dos valores nacionais e dos bons costumes.
Para André Ventura e o Chega, o ideal seria que as Legislativas fossem já em outubro, ou que entretanto houvesse uma crise política, para poderem capitalizar todos os votos obtidos e cavalgar esta onda gerada por quase 500.000 “pessoas de bem”.
Mas o homem providencial e o partido que vieram para “partir isto tudo” sabem que ser anti-sistema é uma mera estratégia. Fazer parte do sistema, leia-se ter poder de decisão legislativo, é o que o Chega quer em última instância.
Para chegar à ambicionada 4ª República, há um caminho a percorrer e é esse caminho que importa aqui analisar.
Por ser um partido novo e intimamente ligado à figura do seu presidente, o Chega não conhece os eleitores que nele votaram, ainda não sabe quem eles são, ainda não sabe de onde eles vieram e se irão ficar ou regressar à sua origem, porque uma grande parte dos votos ainda são votos anónimos.
Quem são afinal os votantes do Chega? Que partidos abandonaram? Quantos abandonaram a letargia da abstenção por causa do partido que tudo vem regenerar? De que forma contribuem para o bem comum? Apenas votaram por impulso emocional porque o homem diz “as verdades”? Que peso intelectual e político têm? Que percurso percorreram e que provas deram para o engrandecimento das suas comunidades? Que crédito regional ou local adquiriram? Que capacidades de liderança e de trabalho têm para conseguirem mudar o estado das coisas? Que tipo de compromisso irá haver para com o projeto político? Quem é que vai dizer, em cada terra, que já chega?
Estas questões não são de somenos e as respostas serão decisivas para a implantação nacional do partido.
Mas o problema é que ele vai precisar de homens e mulheres que corporizem o projeto no terreno, nas comissões políticas distritais, nas concelhias, nas listas para os órgãos autárquicos. Irá olhar para o mapa e para as terras onde teve mais votos e irá certamente recrutar soldados para a batalha. Para consolidar a sua importância e o seu peso e, devidamente suportado pela democracia e pelo povo que quer uma mudança, poder jogar no tabuleiro nacional, ou seja conseguir um aumento exponencial de mandatos na Assembleia da República e fazer parte do governo, o seu último e verdadeiro desígnio.
E é aí que vamos ver que massa crítica surge, que homens e mulheres, intérpretes de um tempo novo, de uma nova forma de fazer política, imbuídos de espírito de missão e promotores de uma alternativa, aparecerão em cada comunidade em que o Chega obteve tantos votos.
Temo que seja um desafio que não se vá resolver com umas meras exclamações sonoras abominando minorias, imigrantes e subsídio-dependentes. Temo que “limpar esta porcaria” e aniquilar o dito sistema podre e corrupto e substitui-lo por um outro mais justo e mais íntegro seja um bocadinho mais complexo do que isso.
É aqui, nesta necessidade de metamorfose, de passar de um partido anti-sistema para um partido do sistema, que se vai ver se o Chega é um bloco homogéneo de meio milhão de portugueses conscientes e decididos que querem uma mudança baseada em todos os princípios orientadores do partido, ou se o mesmo não é mais do que grupo indefinido de pessoas onde se juntam extremismos, saudosismos, xenofobias e descontentamentos vários. O problema é que os descontentamentos vários, traduzidos em votos, são em muito maior número que os fiéis seguidores das linhas orientadoras do partido. E é por causa dessa falta de substância e dessa ausência de identidade coletiva que toda esta aparente dinâmica e esta chegada em ombros poderá estar condenada a ser um fenómeno meramente transitório.
Contudo, se não for um fenómeno passageiro e souber capitalizar apoio e gente que dê a cara pela implementação do projeto político, julgo que alguns partidos, da esquerda à direita, mas principalmente os da direita, irão sofrer consequências. No caso do CDS poderá ser a sobrevivência do próprio partido e no caso do PSD poderá continuar a haver a transferência do eleitorado que não se revê no tom algo brando do seu líder e que por isso vai pedir ajuda a um outro líder manifestamente mais aguerrido.
Uma eventual aproximação do PSD ao Chega como estratégia de união da direita para combater a esquerda poderá ainda trazer um outro perigo para os sociais-democratas: os dirigentes mais moderados, inseridos numa linha de direita social preconizada por Marcelo Ribeiro de Sousa e pelo legado de Sá Carneiro, e também os simpatizantes dessa moderação e que se situam numa espécie de bloco central virtual, não hesitarão em posicionar-se contra esse acordo. E esse é um verdadeiro problema para o PSD. Rui Rio sabe que a matriz ideológica do seu partido não permitirá derivas extremistas sob pena de ficar com crises de identidade. Ao contrário de André Ventura, Rui Rio sabe quem são os seus apoiantes e em que condições continuarão ou não a sê-lo.
Os próximos meses e as eleições Autárquicas irão pois ser um bom indicador do desarranjo social e político que, não há como escondê-lo, a chegada de André Ventura e do seu partido originou.

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico

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