OS GUERRILHEIROS DAS REDES SOCIAIS

Vitor Encarnação

Escritor

Quem usa as redes sociais sabe que os textos longos e que obrigam a pensar estão condenados ao insucesso. A leitura enquanto aturado processo de formação não consegue competir com a futilidade, nem com a rapidez e a aparente assertividade da inteligência artificial.
Com exceção de um contexto em que aquele que publica e os seus seguidores fazem parte de um núcleo com características muito próprias, estando uma e a outra parte disponíveis e mais despertas para a importância da comunicação e da interpretação, no sentido mais básico e mais lato da função das redes sociais, raros são os utilizadores que têm paciência para ler e assimilar mais do que vinte palavras. E se a publicação não incluir uma imagem que entretenha os olhos, a publicação torna-se um autêntico fiasco.
Manter uma conversa equilibrada sobre um determinado assunto e uma postura contida nas redes sociais mais populares requer algumas condições: procurar temas que vão além da espuma dos dias; não responder a eventuais provocações daqueles que não sabem governar outra vida; não querer impor a sua verdade; não estar obcecado com polegares levantados ou corações vermelhos; não se sentir melindrado com um baixo número de visualizações.
As redes sociais não são intrinsecamente perversas, por si só elas não trazem mal ao mundo, é o uso que fazemos delas que as define.
Em 2015, Umberto Eco, renomado escritor, filósofo, semiólogo e professor italiano, afirmou que as redes sociais deram voz a uma “legião de imbecis” que dantes falavam apenas no bar, sem causar dano, mas que agora têm o mesmo direito à fala que um Prémio Nobel, promovendo o “idiota da aldeia” a portador da verdade. Palavras duras, mas prenunciadores de uma realidade inexorável.
O âmbito e a abrangência da opinião alargaram-se, o que antes era dito num contexto reduzido é agora amplificado a uma escala global, a voz e a palavras de cada um ouvem-se e leem-se em todo o lado. A conversa de café chega agora a todos, a convicção e a verdade de cada um, mesmo que culturalmente e cientificamente frágeis, ganham proporções ilimitadas, mediáticas, imediatas, inquestionáveis.
É por isso que as redes sociais estão cheias de discursos curtos, frases que se percebam sem nenhum esforço, conceitos e vocábulos que não exigem mais do que conhecimentos e instintos básicos. Para reagir intempestivamente, para odiar, para mentir, para ofender.
Atrás de um teclado, no ecrã dos nossos telemóveis, o nosso café torna-se planetário, a nossa imbecilidade que não saía da nossa rua corre agora o mundo.
A raiva, a discordância e a maldade que não eram mais do que um grito que se calava a seguir, são agora um eco que perdura nos comentários, nas respostas e nas contrarrespostas. O grito que se calava logo a seguir, continua agora nas letras maiúsculas, as pessoas que usam letras maiúsculas nas redes sociais estão a chamar-nos minúsculos, as palavras maiúsculas são pedras atiradas com força contra nós.
Um texto suave que não fira, palavras que não separem, ideias que não sejam ideológicas ou radicais, são assuntos menores, por onde os olhos passam e não se demoram.
O que é importante é o confronto, o conflito, a provocação. Um poema é tempo perdido, o que conta é o árbitro que não marcou o penálti, um pensamento mais profundo é escusado, o que vale é vilipendiar o político do outro partido, um elogio é menorizado, o que interessa é denegrir a pessoa e os seus atos.
A criação de perfis falsos eleva a maledicência a um grau de violência assustador. São autênticos exércitos de guerrilheiros anónimos que arrasam a dignidade e a honra de quem se posiciona de uma forma diferente do seu fanatismo.
As redes sociais são o espelho da nossa vida, das nossas opções e do caminho que escolhemos, e tal como o vinho em excesso, a fúria, a adrenalina e a vertigem da nossa opinião também mostram o que, lá no fundo, realmente somos.

P.S. Nota do autor: Mea culpa, mea maxima culpa.

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