O pastor

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

No montado, o pastor guarda o silêncio todo na boca. As palavras ditas e os outros ruídos do mundo não passam por ali que o pastor não deixa. Ali, só quem passa é a brisa e mesmo essa vem já ao fim da tarde, fresca, fugida do sol, para pentear e endireitar a erva que o gado pisou.
Para além de silêncio e gado, o pastor também guarda o tempo. Aliás, é ele que tem a chave do mecanismo do devir. É ele que abre as manhãs. Ao acender o primeiro cigarro puxa fogo ao sol para que este nasça em pequenos gritos de luz. É ele que acorda o balido das ovelhas, as asas dos pássaros, a côdea do pão, a humidade das rãs, a rijeza do cajado, o rabo dos cães, a viscosidade dos lagartos, o canto dos pintassilgos, o veludo das borboletas, as sombras das árvores. É ele que cria a fome de talhadas de toucinho e copos de vinho, que convida a folga para dentro do corpo depois de almoço, que entrega um mapa da erva boa ao rebanho, que traça o plano de voo de um falcão, que aquece a água da barragem, que, a toques de bordão, vai fazendo girar a terra toda, como um carrossel feito de ponteiros e doze números, até o sol, pintado da cor das laranjas de umbigo, se esconder a pouco e pouco num buraco ali para os lados de Garvão. Para quem não sabe, á ali que o astro dorme. É o pastor que com o isqueiro acende as estrelas, os olhos das corujas, o sono das galinhas, o medo do escuro, o descanso dos cães, o desassossego dos ratos.
A pelica é um ninho de andorinhas, um refúgio de pardais pequenos, uma toca de coelhos vadios, uma malhada de borregos pequenos, a casa do coração.
O pastor é um farol guiando ribeiros e garças, uma guarita onde os trigais descansam do vento, um cristo-rei de braços fechados abençoando cerros e planuras.
O cajado é a trave mestra do mundo. Sem ele a pastagem era invertebrada. É ele a espinha dorsal do tempo, a viga de azinho que suporta o horizonte, o pau que sustenta as nuvens, que aguenta o azul, que fura o céu para fazer chover, que é fálico porque a terra à vezes arredonda de mais. O cajado é o general dos cães. Sem ele, os cães eram soldados insurrectos e as ovelhas talvez perdessem a sua obediência de lã.
Um pastor sem cajado é um eunuco conquistando mulheres.
À noite, a Estrela Polar guia-lhe a mão – mais o outro cajado que guarda o desejo – pela galáxia da pele e só a pára quando o corpo todo atinge o céu. No campo há flores que são frutos das sementes que vêm de dentro dele. São pequeninas flores verde-fogo que crescem à beira dos poços da alma.
Os seus olhos campaniços são dois camaleões poisados na terra. Ora amarelo-pó no verão, ora castanho-torrão no outono, ora cinzento-água no inverno, ora verde-erva na primavera.
O rebanho entretém-se numa estratégia de ruminação de erva. Os cães lambem uma ferida. O pastor rumina os pensamentos. São todos intérpretes de um destino que uma cegonha anuncia nas asas quando voa.
Eu passo na estrada.
O pastor acena-me e eu desligo o rádio.
Também eu preciso de sentir o sabor do silêncio na minha boca.

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