Memória de um homem bom

Quinta-feira, 8 Setembro, 2016

António José Brito

director do correio alentejo

Há pessoas que ficarão para sempre no nosso coração. António José Caçoila Marques, para muitos e muito carinhosamente o ICA, é uma dessas pessoas. Nem me lembro quando o conheci, mas sei que sempre gostei muito dele e que a sua morte é um momento marcante e de difícil compreensão.
Sou muito orgulhosamente de Entradas e o ICA era, ele próprio, um exemplo maior da alma de Entradas. Nas suas qualidades, no seu sorriso franco e naqueles olhos luminosos que mexiam connosco, nas suas repentinas revoltas e nas grandes paixões que nunca disfarçava. Mas sobretudo na sua humildade rara!
Em meados dos anos 80, quando comprou a camioneta Bedford amarela, via-o passar com carradas de palha a caminho do Algarve para governar a vida. Por poucos dias fui seu ajudante e, na primeira tarde, com 16 ou 17 anos, fiquei com as mãos “desfeitas em sangue” por causa dos arames escaldantes dos fardos. Na manhã seguinte, aí às 6h00, a minha mãe a acordar-me e eu a olhar para as mãos: à porta do quarto, lá estava o ICA do sorriso franco, divertido com o meu desconsolo!
E lá fomos levar a palha… para a grande quinta algarvia de Mobutu Sese Seko – esse mesmo, o histórico ditador do Congo que comprava fardos de palha para os seus cavalos em terras portuguesas, ali para os lados de Algoz. Nesse trabalho, resisti apenas uma ou duas semanas. Mas ouvi esta pequena história vezes sem conta. O ICA deliciava-se a recordar este episódio simples, porque era um homem muito simples. Todavia, era um homem com um carácter tão forte como há poucos. Conheci-o em discussões onde não se acomodava e sempre assumia uma coragem física que nem todos temos.
Dele guardo memórias que nunca desaparecerão: o seu amor incondicional e franco e eterno pela Alierta. Um caso raro de paixão genuína e duradoura, cujos frutos foram dois filhos (a Beth e o João Carlos) com a têmpora dos pais, naquilo que é a simplicidade e a transparência na relação com os outros, numa herança genética que tem tanto do ICA como da mãe.
Mas, no caso deste grande amigo que agora partiu, essa simplicidade traduziu-se sempre numa maneira de ser e estar muito próprias que todos recordamos agora com muita saudade. Nos clássicos bailes dos anos 80 e 90, o ICA era uma alegria a dançar por toda a sala com a Alierta, a fazer leilões de bolos de café e garrafas de vinho do Porto ou a cantar os “hinos” do Entradense que ele próprio escreveu e sempre farão parte da história de Entradas e de muitas vidas.
Diga-se, aliás, que o futebol e o Entradense (salvo erro, era o sócio nº2) sempre foram uma das suas paixões mais extremas. Desde os tempos do INATEL à passagem pelo Distrital, o ICA foi jogador, dirigente e treinador. E nesta última função, costumava dizer com grande graça que era “um distribuidor de camisolas” – era a sua foma elegante e graciosa de explicar que ninguém podia ser treinador de uma equipa que não treinava!
Fosse como fosse, a sua paixão era tal que nunca desperdiçava a oportunidade de entrar em campo e, naquele seu estilo desengonçado mas muito esforçado, honrava a camisola do Entradense e de Entradas – dois elementos cruciais da sua vida e do seu carácter, porque para ele Entradas estava acima de tudo e se há pessoa que herdou todos os genes de uma terra que foi sede de concelho, teve autonomia administrativa e nunca quis estar submetida a Castro Verde… o ICA era, tenho a certeza, um dos mais fortes expoentes desse sentir!
Por isso, julgo que Entradas já tem poucos entradenses como ele. Tal como julgo que um povo que não guarda, não respeita e não preserva a memória dos seus, é um povo sem alma e que tende a deixar morrer a sua história e o seu carácter. Não acredito ser esse o caso do povo de Entradas!
Honrar as pessoas pelo que foram, simplesmente como pessoas, é na minha opinião um acto muito raro. Neste caso, sinto sinceramente (pelo que aqui escrevi e por muito mais que podia ser escrito) que o ICA foi um homem exemplar e querido na vila de Entradas. Um homem bom que todos recordaremos como figura muito especial da nossa terra e que ficará para sempre ligado ao Entradense.
Defendo, portanto, que o saibamos fazer viver para sempre entre nós! E a melhor homenagem que lhe podemos fazer é batizar o campo de futebol com um novo nome que honrará todos aqueles que, sem querer nada em troca, durante anos a fio deram o melhor de si a Entradas e ao Entradense!
Campo Desportivo António José Maques – ICA: Estou certo que será uma homenagem cuja justiça ninguém questionará.

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