Crónica a Duas Vozes

Napoleão Mira

Escritor

Há regressos que não se fazem de avião, carro ou comboio. Fazem-se de bicicleta, mesmo aos setenta anos, quando os joelhos começam a ranger antes dos dentes. É nela que retorno. Não ao lugar. Ao tempo.
O homem pedala devagar. O menino não sabe o que é devagar.
O dia é de verão. A rua estende-se, longa, branca, nua, com o sol a cair a pique. Pouca sombra. Nunca houve muita. O homem reconhece o cheiro da terra quente, o rumor das cigarras, qual banda sonora das terras sem sombra.
O menino corre.
Não sente o calor da mesma maneira.
Não pensa em coisa nenhuma.
Só vai.
Paro na esquina da rua de Aljustrel, junto à Igreja Matriz.
Foi ali que nasci.
O menino não sabe que nasceu ali.
Para ele, aquele é apenas o lugar onde começa o mundo. A casa já não é casa. Porta trocada. Janelas envidraçadas. Um silêncio diferente.
O homem vê o que falta.
O menino via o que havia: o reboco irregular, a ombreira gasta, a porta sempre pronta a abrir-se. A mãe em movimento constante, entrar, sair, voltar a entrar como se o tempo não chegasse para tudo.
Mais tarde será a loja dos manos Hermínios. O homem hesita no nome — como se agora precisasse de o fixar.
O menino não. Para ele era só “a loja”.
Lá dentro cabia tudo: pregos, sabão, latas, tulhas de grão, gorpelhas de feijão, latas de bolachas, vozes. Muitas vozes.
Os manos sabiam mais do que diziam. O homem percebe isso agora. O menino apenas escutava, sem entender que havia coisas ditas à chucha-calada. Ao balcão era o lugar onde o mundo se juntava. O menino não sabia o que era o mundo.
Do outro lado da rua, a carrinha-biblioteca.
O homem vê-a como símbolo.
O menino viu-a como deslumbre.
As portas abriam-se e havia livros. Muitos livros. Demasiados para caberem naquela praça. Como se viessem de fora, de um lugar que ainda não tinha nome.
O jovem Hélder. O Herberto bibliotecário.
O homem sabe quem ele viria a ser. O menino via apenas um jovem, que entregava livros com uma atenção difícil de explicar.
O homem tenta recordar um gesto.
O menino já o viveu sem o guardar.
Consta-se que pela Feira de Castro passava um tal de António Aleixo. Oferecia quadras a quem lhe comprasse gravatas.
O homem reconstrói mentalmente a cena.
O menino talvez tenha passado por ela sem parar.
Um homem a dizer versos no meio do ruído. Um homem a medir o mundo em poucas palavras. Um homem que cabia numa esquina e não cabia em lado nenhum. E o menino ali. Sem perceber.
A bicicleta encostada ao muro.
O homem aproxima-se com cuidado.
Sente o peso dos anos no gesto de montar. O menino já lá está, enfiado no quadro antes dele, sem esforço, sem consciência. Pedalam. O menino vai à frente. O homem tenta acompanhar.
Não há destino.
Nunca houve.
Só este atravessar de ruas que já não são as mesmas e que, ainda assim, persistem.
O homem chama-lhe memória.
O menino, espanto.
Talvez seja isto o tal sobressalto. Não a recordação. Não a saudade. Mas o instante raro em que o homem e o menino coincidem — por um segundo apenas — na mesma rua, na mesma luz, no mesmo silêncio. E depois se separam outra vez. Quiçá….de vez!

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