Beja precisa de mudar de vida

Sábado, 7 Janeiro, 2012

João Espinho

Estarão hoje em discussão, ou numa das próximas reuniões do executivo camarário de Beja, o Orçamento da autarquia para 2007 assim como o Plano de Actividades para o próximo ano. Foram já ouvidas algumas vozes sobre o que poderá estar nesses dois documentos, sabe-se que a palavra rigor é aquela que é mais vezes repetida pelos responsáveis pela governação da cidade e temos também ouvido que este será, novamente, um orçamento realista, isto é, sem receitas inflacionadas, para que a sua execução se aproxime da realidade.
Julgo que todos os intervenientes neste processo estarão cheios da maior e melhor boa fé, quer aqueles que são responsáveis pela sua execução, quer aqueles que, na oposição, têm dado o seu contributo para que as suas propostas e sugestões sejam viáveis e, assim, traduzam o que pensam ser o melhor para as populações do concelho.
Há, porém, uma realidade, que não pode ser escamoteada, principalmente pelas forças que estão na oposição: o orçamento, ora em discussão, está longe (para não dizer que é oposto) de conseguir pôr em prática alguns dos desígnios apresentados por aquelas forças, quando há pouco mais de um ano apresentaram as suas propostas aos eleitores e que recolheram a confiança de grande parte deles.
E não é necessário ser um entendido nestas matérias orçamentais, para se perceber que este será mais um orçamento que traduz uma política que em nada tem a ver com aquelas que são propostas pelos partidos da oposição.
Este orçamento, como os anteriores e, previsivelmente, como os que se seguirão, está longe de cortar alguns males pela raiz, está muito afastado de ser um instrumento que possa trazer algo de novo à cidade e à região, este orçamento é, numa palavra, mais do mesmo.
Para além das restrições impostas por uma legislação autista, este executivo não deu um único sinal que tenha em vista a captação de novos investimentos, não demonstrou ter vontade de trazer (ou fixar) empresas, sejam elas industriais ou comerciais, este executivo não foi claro na sua intenção de “mudar de vida”.
E o que Beja precisa, é mesmo, de mudar de vida.
Primeiro, esta Câmara deveria ter como prioridade um corte profundo nas despesas supérfluas. Quanto se gasta em comunicações? Quantos telemóveis estão distribuídos por quantos funcionários? Quantos quadros levam diariamente para casa os automóveis de serviço, seja à hora do almoço ou ao fim do dia? Quanto é que se gasta em combustível? Quanto custam ao erário público as emissões diárias radiodifundidas da responsabilidade da Câmara Municipal de Beja onde se anuncia meia dúzia de banalidades? Qual é a despesa com o Boletim Municipal, esse órgão de propaganda das obras em curso? Qual é a carga, na coluna das despesas, dos centos de subsídios dados a associações que pouco ou nada produzem? Em quanto orçam as despesas nas deslocações (transporte, alojamento, alimentação) de quadros que assistem a conferências de duvidosa utilidade?
Acredito que todas estas despesas sejam efectuadas com boas intenções, mas também acredito que as mesmas poderiam ser amplamente reduzidas, sem que os objectivos políticos deixassem de ser alcançados.
Depois, esta Câmara, como tantas outras, incapaz de originar receitas, limita-se a ser uma gestora administrativa, não desenvolvendo uma política que ponha em prática o que ela mesma se propôs fazer em campanha eleitoral.
A mudança e a modernidade, apregoadas nos panfletos eleitorais, não estão contempladas nos projectos orçamentais. A centralidade estratégica ficou esquecida no programa da CDU, restando ao actual executivo planear e concluir algumas obras, algumas das quais são emendas às que foram contempladas na cegueira da “requalificação urbana” da cidade. A criação de oportunidades para jovens – quer na cultura, quer na produção de meios de trabalho, ficou esquecida numa gaveta à espera de melhores dias. O “diálogo entre o passado e o presente”, que faz das cidades espaços fascinantes, transformou-se num monólogo monocórdico e monocromático.
Este executivo, agarrado à ideia conservadora de que o triângulo Sines/Aeroporto/Alqueva é a salvação do mundo alentejano, projecta a sua fantasia em movimentos de discussão inconsequente, sendo incapaz de efectivamente projectar e relançar a cidade.
Beja, que vem perdendo imagem e projecção no exterior, necessita de um verdadeiro impulso que passa, obrigatoriamente, por uma alteração profunda nas políticas e nas rotinas de quem a governa. Precisa de quem entenda e acredite na inovação, quem a pense como uma cidade com futuro e não como uma cidade bastião de políticas ultrapassadas e desajustadas. A cidade de Beja e a região reclamam por um novo rumo, antes que se transforme num lugar onde não apeteça estar e muito menos voltar.
Numa palavra, Beja precisa de mudar de vida.

(crónica igualmente publicada em
http://www.pracadarepublicaembeja.net )

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Em Destaque

Últimas Notícias

Role para cima