Auto-avaliação

Quinta-feira, 4 Fevereiro, 2016

Vítor Encarnação

Saiu da aula completamente vazio. O corredor da escola era um beco sem saída e à entrada da sala dos professores agarrou-se bem à alma para não a deixar cair toda.
Era como se dentro dele se tivesse partido a engrenagem que gera a motivação e o engenho de ensinar. Como se os rolamentos se houvessem soltado dos eixos ou um coração palpitante, de repente, desistisse. Ou um rio parasse a meio e se cansasse da água que leva.
Ou um professor perdesse a ilusão.
Vinte pessoas naquela sala e ele nada lhes deu, nem acrescentou. Durante noventa minutos passou por eles sem deixar rasto. Estiveram lá mas é como se tivessem faltado todos. Quando toca para sair, ele sai oco e aflito.
No intervalo grande tenta recompor-se. Bebe um café, fuma dois cigarros e a ânsia, tudo sem filtro. Os livros que traz na mala são um molho de cartas sem endereço e ele é um carteiro perdido.
Esmorece tantos anos depois. Não sabe o que há-de fazer aos alunos que estão ali à sua frente, supostamente para o ouvirem e acreditarem nele. Parece mentira como o tempo o fragilizou! Ele que já se sentiu Nóe, e a sua obstinação era a barca que levava aquelas moças e aqueles moços todos lá dentro, e os salvava do desânimo, ele, esse barqueiro de emoções, andava agora à deriva. De aula em aula. Com um horário a servir-lhe de jangada. Podia lamuriar-se na sala dos professores, mas há uma parte dele que felizmente ainda não morreu: ainda se lembra de ser aluno, de ser ignorante às disciplinas dos professores sabichões, de ter medos, de gostar de ser engraçado e de sair da norma como quem precisava de respirar.
Como se fosse um carrinho de linhas movido a sabão subindo a custo a memória, lembrou-se que a sala de aulas já fora uma rua, gente, muita gente, um peito aberto, um café, lágrimas felizes e das outras, noite, luz, tréguas, pai, mãe, gritos e murmúrios, um ninho, Deus, Diabo, paixões, guerra e paz. Metallica e Bach, asas, viola campaniça e abismos.
Entra. Pega no giz e giza a aula.
O sumário de hoje é: Poemas talhados na gramática das coisas.

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