A balada dos Zaranza

Vitor Encarnação

Escritor

Na cama deles já só se deita o cansaço. São dois corpos inertes, ora de olhos abertos à procura de luz naquele escuro, ora de costas voltadas um para o outro pensando que o outro já dorme, pensando que bom seria poder dormir se o acordar valesse de alguma coisa. São dois cadáveres ainda vivos enterrados num caixão de flanela. Envergam dois pijamas grosseiros porque o desejo morreu há já muito tempo afogado no sofá a ver televisão.
Conheceram-se num baile na Sociedade. Ele de camisa aberta, cigarro e Sagres mini na mão direita, jarra da quermesse na mão esquerda, sorriso malandro, calça de ganga apertada na perna, caindo em boca de sino, sapato alto, fio de prata com crucifixo, cabelo comprido. Ela de vestido justo, decote profundo, olhos de amêndoa doce, perna cruzada, cigarro fazendo sinais de fumo, cabelo fazendo sinais de fogo.
No palco, os Zaranza começam os primeiros acordes de uma balada e ele pergunta-lhe com os olhos e ela responde-lhe com os olhos. Que sim. Primeiro os braços por cima dos ombros, os dedos ainda quietos. Mas a música continua e o desejo aumenta. O solo da guitarra abre os diques do desejo e os braços são tornos de carne apertando carne e os dedos termómetros medindo a febre da pele. Agora encostam-se, acostam-se, sentem a força dos encaixes das ancas e o crucifixo desliza pelos seios.
Na cama, os ocupantes buscam em vão o sono, tapam o silêncio com uma peneira. Às vezes viram-se, mas só para resolver os ossos e os músculos por estarem sempre na mesma posição. Quando se esquecem que estão mortos e algum deles puxa as palavras à boca, elas são logo enforcadas ao aproximarem-se dos lábios e engolidas. Ela engole-as com lágrimas. Ele engole-as a seco. E os bicos e as lâminas e as facas que as palavras trazem vão rasgando as entranhas até ao estômago onde se faz o nó que nenhum deles já sabe desatar. Só a respiração dos dois faz desta morgue um quarto de cama. Ao lado de cada um, uma mesa de cabeceira. Numa delas o relógio conta o tempo que falta para se erguerem das cinzas. Ainda falta muito. Os ponteiros andam lentamente, em esforço, é que este tempo é sempre a subir.
A igreja estava toda iluminada. Depois da leitura dos salmos ele diz que sim, ela diz que sim. Juram para todo o sempre na alegria e na tristeza. Marido e mulher. Que Deus os acompanhe, a eternidade é muito maior do que parece no altar duma igreja.
Voltemos à cama. Continuam sem dormir. Ele limpa a garganta, ela assoa-se. Ele passa a mão pelo cabelo. Ela pela cabeça. Nenhum deles a sabe já passar pela consciência. Ali estão, o roupão a aconchegá-los como uma mortalha, um copo de água para quando a noite for demasiado seca.
E só quando se levantam e tomam banho é que raspam o breu, cortam a barba e as olheiras, beijam os filhos, bebem café, saem para a rua, mergulham no trabalho.
Assim vistos ao sol até parecem felizes.
Eles já perderam o cabelo comprido e elas têm olhos de amêndoa amarga.

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