Mértola é conhecida pela sua imensa herança histórica, onde as muralhas medievais guardam memórias do tempo em que o rio Guadiana era uma verdadeira autoestrada de comércio.
Hoje, nas margens do mesmo rio, o grande rio do Sul, testemunha-se outra revolução. Desta vez, silenciosa, ecológica e profundamente ligada à terra.
Num território fustigado por verões implacáveis, solos exauridos e pelo fantasma do despovoamento, nasceu a Associação Terra Sintrópica, um verdadeiro “laboratório vivo” que desafia o carácter árido da região.
A ideia partiu de alguns resilientes, cuja missão ambiciosa passa por transformar a vulnerabilidade alimentar do nosso semiárido numa nova oportunidade de regeneração ambiental, económica e social.
Este novo conceito de produção de alimentos, afinal, não se afasta assim tanto de algumas das práticas utilizadas pelos nossos avós. A diferença está na forma como hoje se cruzam o conhecimento ancestral, a ciência e a observação dos processos naturais.
Mas, para conhecer de perto o epicentro desta transformação, encontrei-me com Nuno Roxo à porta do PREC — Processo Regenerativo Em Curso.
Nuno é o responsável pela comunicação e, sem dúvida, uma das figuras mais carismáticas e indispensáveis de todo o projeto. Ele encarna na perfeição esse espírito de “loucura saudável”, irreverência e resiliência, que tantas vezes é necessário para fazer nascer alguma coisa diferente.
Tem o ADN da terra e utiliza o conhecimento profundo da população, aliado ao seu “riso fácil”, para fazer a ponte entre a vertente técnica da agroecologia e a comunidade de Mértola, onde conhece cada recanto e quase toda a gente.
Na sua juventude, viu partir à procura de uma vida melhor, alguns dos amigos com quem cresceu. Ele próprio poderia ter seguido outro caminho, mas mesmo contrariando um desejo familiar, preferiu ficar.
Ficou porque acreditava que com a sua resiliência, podia contribuir para que alguma coisa acontecesse na terra onde nasceu.
É daqueles homens que parecem ter sempre uma história para contar e, sobretudo, uma ideia para pôr em prática.
Ao longo da nossa conversa, foram surgindo muitas histórias locais e muitas ideias sobre o modelo que ajudou a criar. Nuno fala delas com entusiasmo, mas também com a consciência de que uma transformação desta dimensão exige responsabilidade, persistência e, acima de tudo, tempo.
Foi ele que me levou da vila de Mértola até à Horta da Malhadinha, para lá da outra margem do Guadiana.
Atravessamos a ponte e, a icónica e acentuada subida de Além-Rio, que funciona como uma espécie de varanda natural sobre a vila, leva-nos ao cimo do morro. Pouco depois, deixamos o asfalto e entramos por uma estrada de terra batida.
À nossa volta está o Alentejo de agosto: pouca sombra, arvoredo escasso, estevas secas e aquela paisagem que tantas vezes parece ter sido desenhada pela própria falta de água.
Ao chegarmos à horta, a primeira sensação é quase de surpresa.
O verde surge no meio daquela paisagem, parecendo querer competir com a restante envolvência. Não é um verde exuberante, próprio de outras geografias. É um verde que parece ter conquistado o seu lugar contra todas as probabilidades e certezas.
A Horta da Malhadinha é um espaço de experimentação, produção, aprendizagem e monitorização de práticas regenerativas, pensado precisamente para um território onde a água é escassa e a desertificação constitui uma ameaça real.
Mas aquilo que acontece ali não se explica apenas com palavras como agricultura biológica, sustentável ou regenerativa.
Ali fala-se de sintropia.
E talvez a melhor maneira de a compreender seja através do olhar.
O modelo tem uma base agroflorestal e procura mimetizar a dinâmica, a estrutura e a sucessão natural das florestas.
A sintropia propõe, em muitos aspetos, o oposto do modelo agrícola tradicional: mais densidade, mais diversidade e mais cooperação entre espécies.
Nas linhas de cultivo, árvores de sequeiro, hortícolas, arbustos e biomassa crescem de forma estratificada.
O segredo passa também pela poda constante e estratégica. A matéria vegetal cortada é depositada diretamente sobre a terra, criando uma cobertura orgânica que protege o solo dos raios solares, ajuda a conservar a escassa humidade e alimenta uma complexa rede de microrganismos.
É uma agricultura que procura trabalhar com a natureza, em vez de lutar contra ela.
A Terra Sintrópica é um dos pilares da estratégia “Mértola, Laboratório do Futuro”, uma visão territorial que procura integrar ciência, comunidade local e autarquias.
O modelo está a atrair a atenção de investigadores e curiosos de várias partes do mundo.
Este laboratório vivo, traz também a Mértola, cerca de sessenta voluntários por ano, a maioria deles vindos de diferentes países e ligados a universidades e instituições de ensino, que ali encontram um espaço para aprender, experimentar e partilhar conhecimentos.
Mas o futuro que está a ser plantado em Mértola não se limita à Horta da Malhadinha.
O projeto já começa a ser replicado noutros lugares.
Aqui cresce uma possível lição para a Europa do Sul. Um vislumbre daquilo que poderá ser o futuro da bacia do Mediterrâneo, uma das regiões mais ameaçadas pelas alterações climáticas.
Estas hortas sintrópicas surgem como pequenos oásis de resiliência criados pela mão humana.
É o futuro do Alentejo a ser plantado, linha a linha, árvore a árvore.
Mas este laboratório vivo já ultrapassou há muito os limites da horta e
também se preocupa em fixar pessoas.
Nas escolas, por exemplo, estão a ser desenvolvidas as hortas-floresta segundo os mesmos princípios. Nelas, as crianças aprendem a cuidar da terra e aproximam-se de uma realidade que muitas vezes parece esquecida: a comida não começa no supermercado, mas sim na terra.
O modelo está a ser aceite com muito entusiasmo pelos alunos, encarregados de educação e professores, tendo sido já implementado em cinco centros escolares, constituindo uma das atividades obrigatórias de cada ano letivo.
Do projeto, resulta ainda o abastecimento das cantinas escolares com produtos agroecológicos locais, a recuperação de hortas tradicionais abandonadas e a criação de canais de mercado direto, estimulando simultaneamente a economia circular. São os produtos e a comida mais saudável à mesa das crianças e são os produtores locais a escoarem os seus produtos.
A produção da Horta da Malhadinha integra ainda uma rede alimentar que permite a entrega quinzenal de cerca de quarenta cabazes distribuídos por Mértola, Castro Verde e a cidade de Beja.
O projeto, fez ainda nascer o PREC — Processo Regenerativo em Curso — um espaço físico multifuncional que faz parte da Associação e ocupa um edifício na principal rua da vila, com o objetivo de aproximar a comunidade da produção local e ajudar ao escoamento dos produtos da Horta da Malhadinha.

Ali funciona uma cantina vegetariana e vegan, um café, uma mercearia biológica e um espaço de encontro comunitário onde acontecem debates, workshops e outras iniciativas.
Nuno Roxo é também o gestor deste projeto.
É ele que procura garantir que aquilo que é colhido de manhã na horta possa ser transformado em refeições e servido no próprio dia.
Mas, mesmo com muita ocupação, Nuno ainda encontra tempo para ser guia turístico local oficial e ecoguia na região.
Comunicador nato, utiliza a sua arte de “contador de histórias” e dá a história de Mértola aos visitantes e turistas, mas também para falar com estes e com alguns investigadores sobre a urgência de regenerar o Alentejo.
É este homem que faz a diferença entre o comodismo e o inconformismo quando se tem uma visão de que algo pode ser feito. Ele já vestiu fato e gravata durante algum tempo, mas abandonou um emprego estável, com um salário acima da média, para se dedicar à causa sintrópica.
Foi um tempo em que sabia que não era aquilo que procurava, e nessa altura, houve quem o chamasse de louco.
Hoje, a própria equipa da Terra Sintrópica descreve-o de outra maneira: “sonhador persistente, adoravelmente louco, único e insubstituível”.
Talvez a diferença entre a loucura e a visão esteja apenas no tempo.
Todos nós, durante demasiado tempo, olhámos para os territórios do interior perguntando o que lhes faltava: água, população, emprego, árvores, investimento…
Talvez seja agora tempo de começar a perguntar também o que ainda podemos fazer com aquilo que temos.
Mértola e a Terra Sintrópica estão a experimentar uma resposta.
E, naquela paisagem onde agosto parece querer secar tudo, há um verde que insiste em nascer.
Talvez seja esse o sinal mais importante. Talvez seja agora tempo de começar a perguntar o que ainda podemos fazer com o que temos
Mértola e a Terra Sintrópica estão a experimentar uma resposta.
O futuro do Alentejo pode não estar apenas à espera de ser descoberto.
Pode estar, simplesmente, à espera de ser plantado.








