Camões e Saramago

Vitor Encarnação

Escritor

Tenho assistido ao debate sobre as leituras obrigatórias no 12º ano de escolaridade e as leituras ideológicas que se têm feito sobre a manutenção de uns autores e a substituição de outros.
Relativamente a Saramago, quem tem memória sabe que o autor e a sua obra têm sido uma espinha atravessada na matriz social e cultural dos partidos mais à direita.
Há quem diga que na vida não há coincidências e que nada acontece por acaso.

“(…) Sem vergonha o não digo, que a razão
De algum não ser por versos excelente,
É não se ver prezado o verso e rima,
Porque, quem não sabe arte, não na estima.”
Lusíadas, estrofe 97 do canto V,
Luís de Camões

O que me preocupa mais nesta discussão é a forma grotesca como alguns dos intervenientes têm abordado a questão.
Ao ouvi-los, do alto da sua cátedra imberbe, tento imaginá-los a ler poesia, a frequentar a biblioteca, a participar em oficinas de escrita criativa, a interpretar Os Lusíadas, a participar no Concurso Nacional de Leitura, a escrever textos argumentativos, a desenvolver a capacidade analítica e a argumentação lógica para compreender questões fundamentais sobre a existência, conhecimento, ética e verdade, assimilando a literatura como base para toda a formação humana, a empatia, a criatividade e o pensamento crítico, mas não consigo.
Quatro décadas a abrir, a fechar e a gerir salas de aula e bibliotecas ajudaram-me a definir tipologias e alguns presunçosos que eu ouvi percebem tanto de literatura como de um lagar de azeite.
Mas não é tanto pelo atrás exposto que eu cheguei às páginas deste jornal. O debate sobre as leituras obrigatórias parte de um pressuposto errado. Parte do pressuposto de que ao chegarem ao Ensino Secundário todos os alunos compreendem obras com grande profundidade literária. Isso não é verdade, é preciso começar a investir desde a mais tenra idade na construção de competências de leitura e interpretação.
Cada um lê com as palavras que conhece. Os livros e a vida, quem lê sabe que são uma e a mesma coisa. Não há diferenças entre os dois, talvez só as capas que são mais flexíveis do que as mentalidades de quem não lê. Quem lê livros e aprende a vida com eles não fecha portas, não se fecha em si, não se limita a ser amarga e tristemente a sua transitória circunstância.
A literatura e os seus autores não “nascem” no Ensino Secundário. Antes de lá chegarem, os jovens têm de ser objeto de um ato de resistência de quem promove a cultura, a literacia e o conhecimento. É preciso sublinhar, insistir e reforçar para que se possam obter alguns resultados positivos, para que as leituras obrigatórias e a sua interpretação não sejam formatadas por respostas dadas pela inteligência artificial ou ditadas por questões meramente dogmáticas e de agenda partidária.
Os jovens alunos têm de percorrer um caminho de consolidação, cujas etapas incluem necessariamente a capacidade de ler e interpretar com sensibilidade e com espírito crítico.
A leitura, de um livro ou da vida, sem interpretação e consequente amadurecimento, não serve para nada a não ser para fazer figuras tristes e ocas.
“É preciso sair da ilha para se poder ver a ilha”, in O Conto da Ilha Desconhecida (1997), José Saramago
Afinal, o que nós precisamos é mais Camões e mais Saramago.

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