Vítor Encarnação está de regresso às edições, tendo acabado de editar 17 Sílabas de Cal, livro de poesia em que pretende que cada poema “seja o princípio de uma conversa sobre este chão de onde somos”.
A nova obra do autor, professor em Ourique e colaborador desde a primeira hora do “CA”, é inspirada no haiku, um género de poesia tradicional japonesa “formalmente caracterizado por um poema de 17 sílabas, dividido em três frases de cinco, sete e cinco sílabas”.
“Há neste tipo de poesia minimalista, condensada e objetiva uma relação direta com a natureza e é esse conceito que eu aproveito e transponho para o ambiente natural e humano do Alentejo”, explica Vítor Encarnação ao “CA”, que escreveu um total de 150 poemas para o novo livro.
“Cada um deles é uma anotação, uma perceção, ao mesmo tempo rápida e persistente, ao mesmo tempo simples e profunda”, continua o autor, esperando que a leitura de cada poema não seja “um fim em si mesmo, pelo contrário”. “O que eu quero é que cada poema seja o princípio de uma conversa sobre este chão de onde somos. Da raiz ao fruto. Do sul ao sol. Do ventre à cova. Da cal à palavra”, diz.
A cal é, precisamente, o “mote” do novo livro de Vítor Encarnação, para quem “o branco sempre foi o símbolo de uma clara identidade, de purificação, da restauração do orgulho e da dignidade das casas e das pessoas que as habitam”.
“O que eu quero é que cada poema seja o princípio de uma conversa sobre este chão de onde somos. Da raiz ao fruto. Do sul ao sol. Do ventre à cova. Da cal à palavra.”
O autor diz mesmo que “caiar era lavar paredes e alma”, lembrando “a reverência” com que a sua avó caiava, “vestida de preto da cabeça aos pés”. “Contraste maior não há e deixou em mim a certeza de que a cal é uma das palavras que melhor exprimem o Alentejo. A cal é uma folha em branco, sobre ela se escrevem as palavras que dizem o que somos e quem somos”, nota.
O livro 17 Sílabas de Cal é uma edição da ORIK – Associação de Defesa do património de Ourique, com os apoios da Câmara de Ourique e das juntas de freguesia de Ourique e de Santana da Serra.
A obra teve ainda o apoio gráfico de Joaquim Rosa e será disponibilizada para aquisição em cada uma das apresentações que venham a ser feitas.
O livro 17 Sílabas de Cal vem juntar-se à vasta obra de crónicas, contos e poesia já editada por Vítor Encarnação, que reconhece que esta última acaba por ser “a base” de toda a sua escrita.
“Mesmo quando escrevo crónicas ou contos, ela está sempre presente e marca um ritmo e imprime um cunho”, afiança ao “CA” o autor, para quem o desafio de se aventurar na escrita de um romance é, “simultaneamente, um sonho e um pesadelo” – “Um sonho porque é um desejo existencial, um pesadelo porque o tempo vai passando e o sonho vai sendo constantemente adiado”.
Por isso, diz, “e para ficar mais descansado, arranjei a desculpa de que ainda não escrevi o romance porque não tenho nenhum tema que valha a pena”.
“O que na prática significa que não devo maçar os leitores com algo que nada acrescente”, conclui.












