“Olho para a Diocese de Beja como uma seara no fim do Verão”

“Olho para a Diocese de Beja

A 10 de Julho de 1770 foi restaurada, pelo Papa Clemente XIV, a Diocese de Beja. Um quarto de milénio depois, o bispo João Marcos faz ao “CA” um retrato do presente e lança os desafios que se colocam no futuro a uma diocese “em transição” e que o prelado compara a “uma seara no fim do Verão”. “Ou seja, produziu e agora é preciso lavrar e semear novamente”, diz.

Aos 250 anos que novos desafios se colocam à Diocese? Ainda recentemente, num olhar sobre a Diocese, apelou a uma Igreja “missionária, em saída”, com padres capazes de “abrir as portas” e de “despertar e pôr a caminho” os “paralíticos espirituais”, que não assumem a vida cristã. É este o grande desafio?
A Igreja é um ser vivo, que é necessário cultivar. E como se cultiva este ser vivo? Primeiro que tudo, pela evangelização, pelo anunciar do Evangelho.

Sente, portanto, que o grande desafio da Diocese de Beja (e da Igreja) é chegar às pessoas, à comunidade?
A Igreja é católica, que significa universal e, entre outras coisas, que tem dentro de si pessoas em diversos estádios. Tem aqueles que são pequeninos na fé, que vão a uma procissão mas não vão à missa. Tem outros que vão à missa, que ouvem a palavra e que tentam guiar-se pelo que a Igreja ensina. E depois tem este núcleo mais central dos praticantes, que têm uma relação pessoal com Deus e com Cristo. Tudo isto é gente católica, mas é necessário ajudarmos estas pessoas – cada uma na sua situação – a crescer, o que é difícil…

Porquê?
Porque há este peso da tradição, da história… “Sempre fomos assim, sempre vivemos assim, porque é que temos de mudar?”, dizem. Existe esta tradição, que vale o que vale e que não é suficiente para mantermos uma Igreja viva e militante. Portanto, a Igreja precisa sempre de evangelizar, de criar comunidade. Em todas as épocas foi assim.

E não pode deixar de o ser agora.
Pelo contrário! O Concílio Vaticano II dá-nos uma imagem da Igreja que assenta basicamente nisso: a Igreja é uma comunhão. E esta comunhão que é a Igreja é a comunhão para a qual todo o ser humano foi criado, uma comunhão com Deus, com Cristo e uns com os outros.

Falou na tradição: no Alentejo, por exemplo, há esse hábito da população ir às procissões, mas depois à missa só vão maioritariamente mulheres. É isso que é preciso mudar?
Sem dúvida! Mas temos um problema sério no Alentejo que é o problema de grande parte dos habitantes ser gente já de bastante idade. Os jovens até vêm visitar os pais, mas viver aqui não aparece como um objectivo para a juventude. E nós que damos catequese vemos que essa gente jovem, ao sair daqui, muitas vezes se “perde” neste mar que é a vida contemporânea. Ou seja, por um lado, temos este esvaziar. E, por outro lado, temos a gente de fora que vem. Muitos não são católicos, mas há gente católica que vem trabalhar da Índia, etc., e essa é uma nova “frente de combate” para nós.

Chegar a estes novos habitantes estrangeiros?
Sim, sim… A princípio começou mais no litoral, mas agora há por todo o lado.

Mas a Igreja tem ido ao encontro dessas comunidades? Que trabalho tem sido feito pela Diocese de Beja nesta área?
Há padres que sim e até conheço alguns indianos que são recebidos nas paróquias.

Sente que a Igreja pode ter um papel a desempenhar na integração destas comunidades?
Sem dúvida!

Beja é a segunda maior diocese do país em área. Que retrato faz da mesma actualmente?
Olho para a Diocese de Beja como uma seara no fim do Verão. Ou seja, produziu e agora é preciso lavrar e semear novamente. Se não fizermos isso não acredito que o futuro seja risonho.

Para esse “lavrar” da fé são precisos padres. Continua a haver falta de párocos na região?
Haver falta de padres significa que há falta de cristãos… Porque os padres são cristãos e se não há padres isso significa que há aqui uma crise, que as pessoas têm uma fé que não cresceu muito. Aliás, os bispos que aqui estiveram antes de mim sabiam disso e lutaram muito por isso.

Mas os padres com que a Diocese conta actualmente são ou não suficientes?
Eu tenho 42 párocos e 120 paróquias….

O que dá quase um padre para cada três paróquias, numa aritmética simplista.
Sim.

O ideal seria um padre por paróquia?
Um padre por paróquia não dá, porque há paróquias que não têm praticantes. Isso também é um problema que é necessário levar em conta. Por isso, procuramos assegurar que as paróquias maiores tenham um padre residente. E as outras vão-se organizando, mas são paróquias, muitas delas, quase “mortas”, infelizmente.

Não fazia sentido repensar a organização das paróquias na Diocese de Beja, tendo em conta essa realidade que acaba de descrever?
Sem dúvida que sim.

É algo que está nos seus planos?
Penso que não me compete a mim fazer isso agora. Penso que quem vier a seguir a mim poderá fazê-lo. Tudo tem o seu tempo e eu vejo o meu episcopado aqui como uma transição. Ou seja, vejo que o “reinado” de D. José do Patrocínio Dias está a terminar e há uma realidade nova que é necessário levar em conta, que nasce do Concílio Vaticano II. Vejo que os padres fazem o que podem e o que sabem, mas não foram preparados – pelo menos uma boa parte deles – para uma evangelização básica. E portanto, estou aqui neste fim de Verão, em que ainda há umas espigas aqui e além, mas é necessário cultivar novamente a terra. Sempre falei disso e continuarei a falar, porque é nisso que acredito. Os padres que temos são bons como pessoas, são dedicados e não tenho razão de queixa, mas todos reconhecemos que são padres para conservar aquilo que existe na Diocese, não propriamente para fazer uma sementeira nova. Penso que isso exige padres de uma forma diferente… Padres e leigos! Porque esse “semear” não é uma tarefa só dos padres. Essa é uma visão um bocadinho clerical da igreja.

É bispo de Beja desde Novembro de 2016. Que balanço faz destes quase quatro anos de bispado?
Digamos que a mim tocou-me uma missão pouco simpática… [risos]

Porquê?
Porque apanho o “morrer” de uma época e o semear de outra. De maneira que o que é que se vê? Não se vê nada… “Muita terra, pouca gente”, como dizia o senhor [cardeal] patriarca quando vim para cá. Isso é duro, é difícil… Esta Diocese tem três realidades diferentes, quase como se fossem três dioceses. Há esta zona mais central, de Beja a Castro Verde. Depois temos o litoral e temos a margem esquerda do Guadiana. Aqui na zona central a coisa é mais dura e mais difícil. Na margem esquerda do Guadiana vemos que há mais prática religiosa – talvez também por influência de Espanha – e no litoral é o sítio onde há mais gente e, portanto, também onde o futuro parece mais aberto. Mas estou nesta transição, em que já não posso esperar que a evangelização dos meus antepassados continue a produzir muito, mas a realidade que gostava de ver crescer está a acontecer, ainda de forma muito chã, muito pequena.

Tem 70 anos e pode ser bispo até aos 75. Sente que nestes cinco anos será difícil mudar alguma coisa na realidade da Diocese de Beja?
Sinceramente, o que espero é uma tomada de consciência desta realidade por parte dos padres. Houve uma frase que disse numa entrevista à qual as pessoas reagiram muito mal, que era: “Portugal está cada vez mais alentejanado”. O que quis dizer foi a relação das pessoas com a Igreja no conjunto do país está a mudar. Toda a gente sabe que a juventude já não tem aquela relação com a Igreja como quando eu era novo. Ou seja, estamos a assistir a uma mudança de época.

Vai cumprir os cinco anos que lhe restam de episcopado?
Em princípio, penso que sim! Tive um problema de saúde em 2017 que me limitou um bocadinho e nessa altura pensei em renunciar. Mas cá estou e, graças a Deus, a coisa está bastante melhor. Estou pronto para aquilo que Deus quiser.

Ou seja, para já não pensa renunciar?
Penso… aos 75 anos! [risos]

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Correio Alentejo

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