Livros combatem a solidão em Mértola

Livros combatem

No Azinhal não moram mais que 100 pessoas. As ruas de casas brancas e canteiros floridos estão praticamente desertas, ainda mais com o sol ardente que brilha lá no alto a fazer arder a pele nesta manhã de Junho. Aqui e ali ouvem-se alguns latidos, entremeados pelo roncar dos motores que passam a fugir pelo alcatrão do IC 27. O silêncio impera na pequena localidade do concelho de Mértola, até que uma carrinha branca chega ao largo da aldeia. Uma buzinadela, duas, três e logo surgem os primeiros habitantes, de livros debaixo do braço. É sempre assim nos dias em que a Ludoteca estaciona na aldeia.
“Venho aqui sempre. Gosto muito de ler, é um passatempo bom para as horas vagas”, confidencia Manuel Rosa, 59 anos, enquanto espera pelos volumosos livros que lhe vão ocupar os meses de Verão: A Ilha das Trevas, de José Rodrigues dos Santos, e os primeiros dois volumes da saga Um mundo sem fim, de Ken Follet. “Gosto deste tipo de livros, com aventura”.
Dentro da carrinha, a receber e entregar livros, está Natália Cardeira, 39 anos, uma das animadoras sociais ligadas à Ludoteca da Santa Casa da Misericórdia de Mértola. O projecto nasceu em 1993 para apoiar as escolas e combater o insucesso escolar. Anos depois, em 2007, passou a servir a população mais idosa do concelho, sobretudo os que vivem isolados, levando livros, revistas e jornais a 48 localidades tão ou mais pequenas que o Azinhal.
“Temos quase 500 leitores e uma média anual de 1.600 livros emprestados por ano”, conta Natália Cardeira, reconhecendo a importância do serviço. “Vamos aos sítios mais remotos, mesmo àqueles onde só chegamos por uma estrada de terra batida e só vive uma pessoa. Porque para muitos casos, este serviço é como um amigo. Até nos pedem para trazer os medicamentos de Mértola e tudo isso”, diz.
É por isso, continua Natália Cardeira, que o papel da Ludoteca vai muito além da promoção da leitura. “A chegada desta carrinha quebra o gelo e o sentimento de isolamento! Há pessoas que chegam a chorar e que saem a sorrir. E isso é muito importante”, afirma.
“Este projecto tenta demonstrar que a resposta reside não em criar e concentrar mais serviços fixos, mas antes em estabelecer relações de proximidade com as pessoas”, acrescenta o provedor da Misericórdia de Mértola. Para José Alberto Rosa, a Ludoteca acaba por ser “um serviço muito aguardado por parte da população, porque promove o convívio entre os seus utilizadores e, em alguns casos, entre utilizadores de várias localidades”.
Maria dos Anjos Claudino, 75 anos, é utilizadora da Ludoteca e concorda. “Isto é muito importante para terras como a nossa, onde ficamos longe de tudo. E com os livros sempre distraímos a cabeça, para não andarmos a pensar noutras coisas mais ruins”, afirma esta habitante do Azinhal, já com um livro sobre Dolores Aveiro, a mãe de Cristiano Ronaldo, e outro da apresentadora televisiva Ana Marques nas mãos.
“É por isso que devia vir aqui mais gente”, acrescenta a vizinha Maria Manuela Palma, de 53 anos, sem esconder que sempre gostou de leituras. “Em moça ia sempre à biblioteca. E já o meu avô, que morreu com mais de 80 anos, estava sempre a ler e ia sempre à Biblioteca da Gulbenkian, que passava aqui”, reforça.

“Que nunca acabe”
Atendidos os “clientes” do Azinhal, a Ludoteca faz-se de novo à estrada. A viagem é curta e termina poucos quilómetros adiante, no Largo das Flores, em Algodôr. Já lá estão o padeiro, uma carrinha com mercearias e meia dúzia de pessoas abrigadas à sombra. Algumas à espera de livros.
É o caso de Angelina Augusto, 81 anos, que fez uma pausa nas pinturas da casa para não perder a oportunidade de renovar as suas leituras.
“Venho aqui sempre e costumo levar dois ou três livros, é conforme calha. Se não fosse isto, tinha de ser em Mértola. Mas quando é a gente lá vai? Só para ir ao médico ou tratar de algum serviço. Mas é sempre à pressa, para não perdermos a carreira”, confidencia. “É por isso que quando isto esteve uns tempos parado eu fique descorçoada”, acrescenta com bom humor.
Angelina dá depois a vez à vizinha Cecília dos Santos, 76 anos, que acaba por levar dois livros: um romance e outro sobre a utilização de ervas na cozinha. “Sempre gostei de ler e quando ia a Mértola regressava sempre com um jornal ou uma revista. Ou os dois! [risos] É por isso que venho aqui sempre que a carrinha passa”.
Atrás de si, a porta da Ludoteca fecha-se. “Então até Setembro”, despede-se Natália. E logo depois os livros prosseguem a sua viagem pelas estradas do concelho de Mértola. “Que isto nunca acabe”, desabafa Cecília.

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Correio Alentejo

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