D. António Vitalino Dantas cumpriu 75 anos a 3 de novembro de 2016 e passou a bispo emérito de Beja. Nesse dia, em entrevista ao “CA” que agora recuperamos, fez o balanço dos quase 18 anos que passou na liderança da segunda maior diocese do país.
Acaba de fazer 75 anos [no dia 3 de Novembro] e passou a bispo emérito de Beja. Como encara esta “mudança”?
Quando em Janeiro de 2013 decidi pedir um bispo-coadjutor e não um auxiliar, que apenas me foi concedido a 10 de Outubro de 2014, sabia que em qualquer momento ele me iria suceder e por isso deixei de ficar preocupado com a minha sucessão. Agora sinto um grande alívio em deixar a responsabilidade como bispo de Beja, pois o ministério episcopal é um serviço e não uma forma de poder. Mas estarei sempre disponível para colaborar, quando me for pedido e a saúde o permitir.
Que balanço faz do seu episcopado de quase 18 anos na Diocese de Beja?
Sinto que me entreguei a esta Diocese e a este povo com todas as minhas forças, mas nem sempre consegui realizar os meus sonhos e projectos, pois um bispo tem de caminhar com o seu povo e os seus colaboradores, sobretudo o clero e os consagrados, consultando sempre os órgãos colegiais e submetendo-os ao seu conselho e aprovação. Desde o dia 10 de Abril de 1999 comecei a escrever informaticamente o meu diário, nem sempre detalhadamente, pois os múltiplos afazeres não o permitiam. Quando for emérito e tiver disponibilidade, completarei a informação, não para publicar, mas para incluir no arquivo da Diocese, para memória futura.
E lá estarão os problemas com que se debateu… Qual foi a maior dificuldade que sentiu nestes anos?
Desde a primeira hora percebi que a evangelização é uma missão contínua, tendo em conta todo o trabalho apostólico realizado pelo meu antecessor, D. Manuel Falcão, a quem convidei para continuar a residir na casa episcopal e que durante 13 anos me acompanhou. Concretamente, tentei dotar a Diocese com todos os órgãos previstos segundo as orientações do Concílio Vaticano II, dotando-os dos respectivos estatutos. Um dos órgãos novos na diocese é o Colégio de Consultores, com poderes deliberativos quando se trata da administração extraordinária. Tentamos desenvolver a missão apostólica com a “prata da casa”, como por exemplo, lançando um projecto de missão a partir dos colaboradores da Diocese. Outro dos projetos porque me debati foi a reorganização da comunicação e a informatização dos serviços e paróquias. Tratando-se de uma diocese extensa, mas com poucos membros activos, sobretudo nas paróquias, lancei um programa informático de administração diocesana e paroquial, dotando a cúria dos equipamentos necessários, alguns adquiridos por mim antes de vir para a diocese, iniciando alguns colaboradores no seu uso. Nesta área, de evolução e mudanças rápidas, procurei estar actualizado, a ponto de muitos me consultarem quando se tratava de enveredar pelos meios digitais.
Que preocupações leva consigo enquanto bispo emérito?
As preocupações dum bispo emérito devem ser o bem da Diocese e do povo. Por isso rezarei para que o ministério do meu sucessor tenha muito êxito. “Importa que ele cresça e eu diminua”, dizia João Batista referindo-se a Jesus.
Que espera do seu sucessor?
Sendo o episcopado de D. João Marcos menos extenso no tempo, devido à idade, creio que ele tem a sabedoria necessária para dar continuidade ao que está bem e inspirar áreas em que o meu estilo de pastoral não produziu os frutos desejados. Sobretudo na iniciação cristã deste povo bom, mas com menor frequência das actividades da Igreja como noutras regiões.
Chegou ao distrito em 1999. Como olha agora para a região?
O Alentejo mudou muito nestes anos, passando da cultura de sequeiro a culturas intensivas e extensivas de regadio, sobretudo olival, vinha e hortícolas, sobretudo a partir a construção da barragem de Alqueva e da distribuição da água por muitos milhares de hectares. A Igreja não detém o poder económico e político, mas tem de estar atenta, para ajudar a realizar a sociedade, tendo em conta a doutrina social da Igreja e denunciando profeticamente toda a corrupção e mau uso dos recursos da natureza e dos subsídios da Comunidade Europeia. Tudo deve ser para promover o bem comum na defesa da dignidade da pessoa humana. Da nossa parte temos de colaborar com todos os parceiros para a solução dos problemas sociais, sobretudo na protecção da família, também na área assistencial em relação àqueles que não conseguem acompanhar as exigências do desenvolvimento.
Que vai agora fazer? Continuará por Beja ou tem outros projectos em mente?
Vou regressar a uma comunidade da Ordem do Carmo, de onde saí há 20 anos para servir a Igreja como bispo. Mas estarei sempre disponível para servir a Igreja onde for preciso e a saúde o permitir.








