“Um homem só não vale nada.” É com esta constatação certeira que o escritor alentejano Manuel da Fonseca fecha o notável romance Seara de Vento. A frase aplica-se a muitas coisas na vida. Também à reciclagem de embalagens.
O Baixo Alentejo é disso um bom exemplo. Os resultados alcançados mostram que reciclar melhor depende do trabalho conjunto de municípios, operadores, comércio local, escolas e cidadãos. De quem conhece o território e sabe que as soluções só funcionam quando fazem sentido para as pessoas que nele vivem.
Recentemente, a Sociedade Ponto Verde visitou a Resialentejo, responsável pelos resíduos urbanos de oito concelhos: Almodôvar, Barrancos, Beja, Castro Verde, Mértola, Moura, Ourique e Serpa, um território onde, em 2025, foram retomadas 6.320 toneladas de embalagens e que, só no primeiro semestre de 2026, registou um crescimento homólogo de 43% nas quantidades enviadas para reciclagem.
São números que contrariam a ideia de que a baixa densidade condena um território a ficar para trás. Pelo contrário: revelam um Alentejo que lidera e é capaz de transformar as dificuldades de um território extenso numa história de sucesso.
No dia 21 de outubro, visitaremos também a Ambilital, que gere os resíduos de Alcácer do Sal, Aljustrel, Ferreira do Alentejo, Grândola, Odemira, Santiago do Cacém e Sines, onde os resultados são igualmente encorajadores (13,7% de retomas totais SIGRE no 1º Semestre de 2026 face a período homólogo de 2025). São diferentes exemplos de uma mesma realidade: os resultados da reciclagem de embalagens constroem-se no terreno e dependem das características de cada território.
É também por isso que, quando falamos de reciclagem de embalagens, não podemos olhar apenas para os números nacionais. São indispensáveis, mas há uma parte da conversa que acontece muito antes: o momento em que cada pessoa, no lugar onde vive, decide o que fazer com uma embalagem depois de a utilizar.
Essa decisão não acontece nas mesmas condições em todo o país. Num centro urbano, o ecoponto pode estar ao virar da esquina. Numa aldeia do Baixo Alentejo, a distância é outra e a dispersão populacional torna a recolha mais exigente. São realidades diferentes, que exigem soluções diferentes.
Neste capítulo, o investimento é essencial, mas os resultados mostram que, por si só, não é suficiente. Em 2025, o financiamento do sistema atingiu níveis históricos: os custos totais do SIGRE ascenderam a 212 milhões de euros e os Valores de Contrapartida aumentaram 75% face ao ano anterior. Ainda assim, as quantidades encaminhadas para reciclagem cresceram apenas 3% e Portugal ficou aquém da meta de reciclar 65% dos resíduos de embalagens colocadas no mercado. Para 2026, estima-se que o financiamento atinja os 237 milhões de euros. O desafio é, por isso, garantir que este reforço se traduz efetivamente em melhor serviço ao cidadão, maior eficiência na recolha e na triagem e mais embalagens encaminhadas para reciclagem.
O vidro é um bom exemplo. Em 2025, a sua taxa de retoma ficou nos 53,6%, abaixo da meta de 65% e no primeiro semestre de 2026 o crescimento foi de apenas 1%. Melhorar a sua separação implica respostas adaptadas a diferentes contextos, nomeadamente ao setor da restauração, hotelaria e cafés. É também para apoiar soluções mais próximas que existe a Rede Recicla+, programa da Sociedade Ponto Verde que financia iniciativas de comunicação e sensibilização de sistemas de gestão de resíduos urbanos, municípios e empresas municipais.
Uma embalagem mal separada é valor perdido. Bem separada, regressa ao ciclo produtivo como matéria-prima. Garantir que este ciclo funciona em todas as regiões do país, é assegurar que a transição para uma economia circular é verdadeiramente nacional.
Reciclar melhor exige, por isso, conhecer melhor Portugal nas suas diferenças, distâncias e comunidades. O Baixo Alentejo mostra-nos que a mudança acontece onde as pessoas vivem, trabalham e consomem. E que, também na reciclagem de embalagens, os melhores resultados se constroem em conjunto.








