Casével é uma terra cheia de desilusão

Casével é uma terra

Já foi concelho, passou a freguesia e hoje nem isso. Em menos de 10 meses, Casével “perdeu” a Junta de Freguesia e a escola primária e a população teme pelo futuro.
“No meu tempo de menina faziam-se seis bailes na vila e estas ruas eram só rochas. Hoje temos água canalizada e luz, mas há uma grande pobreza: faltam pessoas, faltam jovens e faltam postos de trabalho”, conta ao “CA” Fernanda Palma, enquanto se abriga do sol na parede da casa da madrinha, fazendo uma pausa nos trabalhos de reciclagem que lhe têm ocupado toda a manhã.
Fernanda Palma, de 57 anos, é hoje uma das cerca de 300 pessoas que vivem em Casével.
As suas palavras espelham bem como os últimos 10 meses foram devastadores para esta localidade, outrora concelho (celebrou 500 anos de foral em 2010) e freguesia de Castro Verde desde meados do século XIX.
A 29 de Setembro de 2013, com a realização das eleições autárquicas, foi extinta a Junta de Freguesia. E no passado dia 23 de Junho foi a vez do Ministério da Educação anunciar o encerramento da escola básica.
Dois golpes profundos que deixaram Casével a sangrar por dentro e trouxeram muita preocupação a todos os que (ainda) lá vivem.
“O que era melhor aqui na terra vai-se tudo embora. Por isso sentimos que Casével está cada vez mais pobre e mais triste. Se não fosse o lar [da Fundação Joaquim António Franco] isto não era nada. O lar é que ainda dá uma alegriazinha à terra”, diz Maria Nobre, de 84 anos, abrigada do sol debaixo do seu chapéu de aba larga.
A sua consternação estende-se aos quatro cantos da vila. “Têm-nos tirado tudo… E é claro que fico preocupada. No meu caso já não tenho falta da escola, mas ainda há muita gente com crianças” em Casével, refere Isabel Brito Guerreiro, de 73 anos, reformada, à medida que caminha para a mercearia.
Uma rua acima, precisamente junto à escola que tem os dias contados, Lídia Jorge, 67 anos, também manifesta o seu desagrado com o fecho de serviços na vila. “É cada vez mais difícil viver aqui, isso é! Há cada vez menos gente e sem escola, sem junta de freguesia, sem essas coisas, como é que se traz para aqui pessoas?”, questiona.
A pergunta de Lídia Jorge como que ecoa nas ruas silenciosas de Casével, onde o tempo passa a fugir e o futuro parece ter perna curta. A desilusão é mais que muita.
“Têm tirado tudo a Casével. Antigamente, Casével era mais importante que Castro Verde, mas tem-nos roubado tudo”, diz o agricultor Adelino Palma, 57 anos, que aproveita as últimas horas da manhã para um dedo de conversa à porta do Café Central.
É também na praça envolvente à igreja matriz que Emília Santos desfruta da rara brisa que ainda sopra sem queimar para se refrescar. Mas nem isso a impede de carregar forte e feio nos “mandantes deste país”.
“Já ficámos sem a Junta de Freguesia e agora é a escola! É mau. Este Governo veio para dar cabo de tudo”, sublinha esta almadense de 73 anos, que há quatro anos reside com o marido em Casével, onde são utentes do lar. Mas entre as críticas a Passos Coelho e companhia, não deixa de também condenar alguns dos habitantes da vila.
“Há muita gente que mesmo com a escola aberta ia meter os miúdos à escola em Castro”, assinala.
Uma opinião partilhada por Fernanda Palma e que a leva a concluir que Casével é “quase uma vila-fantasma”.
“Não há crianças e os jovens vão para fora do concelho porque não há trabalho. A própria terra é, em si, um verdadeiro lar. Isto é uma grande tristeza e estou muito preocupada”, desabafa.

Partilhar

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Correio Alentejo

Artigos Relacionados

Role para cima