Liberdade

Napoleão Mira

Escritor

A Liberdade é, talvez, o valor mais precioso da humanidade.
Diria mais: é o valor mais precioso de todo o ser vivo.
E talvez nenhum outro animal nos ensine tanto sobre ela como o cavalo. Basta vê-lo quando corre em liberdade. Sem rédeas, sem amos, sem súbditos. Sem a mão do homem a indicar-lhe o caminho.
Corre e, ao correr, parece devolver à paisagem qualquer coisa que nós, humanos, fomos perdendo pelo caminho.
O vento atravessa-lhe a crina, a terra levanta-se sob os cascos e o corpo inteiro parece dizer: sou livre.
Não corre para chegar primeiro.
Não corre para vencer.
Corre porque pode.
E talvez esteja aí a mais simples e mais profunda definição de liberdade: poder escolher o caminho, mesmo quando não sabemos onde ele termina.
Nós, humanos, inventámos fronteiras, leis, muros, horários, obrigações. Inventámos maneiras de mandar e de obedecer, de possuir e de ser possuído. Até inventámos rédeas invisíveis que já nem sentimos, de tão habituados que estamos a carregá-las.
O cavalo, quando livre, não conhece nada disso.
Não sabe de vencedores nem de vencidos. Sabe apenas da terra que pisa, do vento que respira e do horizonte que o chama. E há qualquer coisa de profundamente humano naquele animal que corre sem pedir licença ao mundo.
Talvez porque, antes de sermos homens domesticados pelas circunstâncias, também nós tenhamos sido assim: capazes de olhar o horizonte sem perguntar onde acabava a estrada.
Quando vejo cavalos em liberdade, penso que talvez a vida pudesse ser mais simples. Não uma vida sem regras, mas uma vida onde o respeito não nascesse do medo, onde a força não precisasse da submissão e onde ninguém precisasse de ser dono para se sentir alguém.
Um cavalo livre não pertence a ninguém. Pertence ao vento, à terra, ao horizonte. E talvez seja por isso que, quando o vemos correr, sentimos uma estranha vontade de correr também.
Não para chegar a algum lugar.
Mas simplesmente para voltar a ser livres.

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