Inteligência artificial, professores e influencers

Vítor Encarnação

Escritor

O clássico problema das escolas, testemunhado por várias gerações de professores, alunos e pais, centrava-se fundamentalmente nas condições estruturais dos edifícios. Tudo o resto era, de certa forma, gerido e controlado internamente.
Os tempos mudaram e essa mudança reflete-se de uma forma intensa em todo o sistema educativo. Se dantes a escola, fruto de uma inquestionável importância e crédito, era o pilar central e o alicerce estruturante da organização social, hoje tenta, a muito custo, encontrar a sua identidade e o seu caminho.
As novas dinâmicas digitais e familiares perturbam, invertem e subvertem a relação com a escola enquanto núcleo de formação de indivíduos conscientes, conhecedores e interventivos.
A Inteligência Artificial alterou o paradigma: o persistente processo de construção do conhecimento através da interpretação já não existe. A resposta imediata está na ponta dos dedos e quase sempre fora do cérebro, esvaziando-o de uma opinião crítica, essencial à democracia.
A Inteligência Artificial está entre nós e não vale a pena fingirmos que não existe. Pode ajudar-nos a pesquisar, criar, adaptar materiais, diferenciar aprendizagens. Mas também facilita a preguiça intelectual, reduz a capacidade de interpretação e a produção escrita e oral, reproduz erros e preconceitos, uniformiza o pensamento, cria dependências e transforma o conhecimento numa resposta instantânea, sem esforço nem reflexão. A Inteligência Artificial deve ser uma ferramenta, não uma autoridade. Pode responder, mas não pode assumir a responsabilidade de pensar por nós. O seu limite deve estar precisamente onde começam a responsabilidade e a criatividade humanas.
Seria urgente e proveitoso verificar a relação que há entre uso continuado de ferramentas digitais e os resultados do estudo PISA, agora publicado, infelizmente ainda mais baixos no Alentejo.
Se perdermos o espírito crítico, se entendermos que a liberdade e a democracia são apenas termos abstratos, corremos o risco de transformar o professor num mero operário reprodutor de um conhecimento uniformizado, neutro, assético, sem desvios, receoso de emitir juízos de valor para não ser acusado de doutrinar os alunos.
Mas educar não é apenas transmitir conteúdos, cumprir planificações, assinar atas cada vez mais formatadas, preencher incontáveis documentos, aplicar e corrigir testes, atribuir classificações. Educar é, primordialmente, ensinar a distinguir a verdade da mentira, a liberdade do autoritarismo, a democracia da sua caricatura, a tolerância da indiferença, a história das suas reinvenções e do seu branqueamento.
Porque uma escola que apenas reproduza as ideias dominantes em cada conjuntura, como se a vida não fosse uma coisa já muito antiga, corre o risco de deixar de formar cidadãos plenos.
E um professor que apenas cumpre programas, sem espaço para questionar, contextualizar, problematizar e estimular o pensamento crítico, corre o risco de se transformar num funcionário burocrático que deixa apenas uma marca de carimbos e assinaturas.
Os influencers – estrangeirismo, tal como outros tão em voga no nosso quotidiano para parecermos todos mais instruídos e globais – são os novos mestres do conhecimento, os guias, os orientadores, mentores, formadores, supremos lentes.
Vivemos numa época em que a notoriedade é frequentemente confundida com conhecimento e a quantidade de seguidores com autoridade. Há demasiados influencers do vazio: opinam sobre tudo, explicam pouco e, muitas vezes, transformam a ignorância em espetáculo.
Talvez esteja na hora de recuperarmos o verdadeiro influencer: o professor. Aquele que não precisa de muitos seguidores para, aturadamente, intervir na sala de aula, nesse espaço fundamental de todo o sistema educativo, transformando, melhorando, preparando.
O professor, esse sonhador incurável, que ainda ensina a fazer perguntas quando todos parecem ter respostas.
Mas para o professor voltar a ser o verdadeiro influencer, é necessário que as instituições centrais, os órgãos de gestão das escolas, as restantes estruturas e parcerias, a família enquanto núcleo central da comunidade, os pais e encarregados de educação e os alunos o sublinhem publicamente todos os dias, através da valorização, do compromisso e do respeito.
E é preciso também que os professores, sem constrangimentos de qualquer ordem, assumam na plenitude a sua importância social e, respeitando deveres e exercendo direitos, façam a sua parte cumprindo integralmente a sua nobre e insubstituível função.
Porque se um dia perdermos a escola, perdemos tudo.

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