Rui Marreiros. “EMAS está muito melhor hoje do que no passado”

Em entrevista ao “CA”, Rui Marreiros, administrador-executivo da EMAS de Beja, faz o balanço dos últimos três anos de gestão, em que, afirma, a empresa responsável pelo abastecimento no concelho de Beja entrou numa rota de consolidação financeira.

Como avalia a evolução da Empresa Municipal de Água e Saneamento (EMAS) de Beja entre 2018 e 2020?

Neste momento, e olhando para estes últimos três anos, diria com toda a segurança que se tratou de uma evolução francamente positiva.

Porquê?

Desde logo, ao nível dos indicadores de qualidade de serviço, há a destacar uma redução, sem precedentes, ao nível do desempenho das redes de abastecimento, com uma diminuição em 67% do número de interrupções de serviço face a 2017, ano que apresentou um desempenho bastante reduzido a este nível. Também quanto ao nível da solidez financeira foi possível actuar de forma positiva em três áreas fundamentais.


Quais?

Ao nível da redução da dívida total de curto e médio prazo, que em 2017 atingiu níveis insuportáveis e sem justificação para uma empresa municipal com esta capacidade, reduzimos em quase cinco milhões de euros, com pagamentos a empreiteiros e à entidade gestora em “alta”, a Águas Públicas do Alentejo (AgdA). Quando à dívida vencida, estamos hoje melhor que nunca. A nossa dívida vencida é de zero euros, ou seja, simplesmente não existe. Trata-se de um quadro financeiro confortável e bastante robusto. E nos prazos de pagamento melhorámos bastante. Todos os pagamentos são feitos conforme os prazos definidos, a menos de 30 ou 60 dias. Temos até casos de fornecedores locais ou pequenos prestadores de serviços aos quais pagamos a pronto. Importa ainda dizer que, embora grande parte da energia tenha sido concentrada no processo de recuperação e consolidação, foi ainda assim possível investir e melhorar toda a nossa infra-estrutura de suporte. Destaque para a intervenção global de substituição de ramais, que nos levou para desempenhos operacionais sem precedentes, diversas empreitadas nas redes de águas de abastecimento, residuais e pluviais, bem como aquisição de equipamento fundamental para uma capacidade de resposta eficaz e em linha com os nossos objectivos de qualidade de serviço. 

Em 2018 descreveu o quadro financeiro da empresa como “muito preocupante”. Pelos números apresentados, pode dizer-se que hoje a realidade é bem distinta?

Depois de dois anos francamente exigentes, 2020 já nos aproximou muito dos objectivos que pretendemos consolidar em 2021. Partindo deste patamar, estamos mais preparados para fazer face a alguma perturbação ao plano de negócios traçado decorrente, por exemplo, do cenário que estamos a atravessar há quase um ano e que se prolongará como tudo indica. Neste contexto, também estamos posicionados na linha da frente para concorrer aos fundos que serão disponibilizados em breve, quer por via do Plano de Recuperação e Resiliência ou Plano Nacional de Investimentos, entre outros.

Como é sabido uma das condições essenciais para se voltar a aceder a financiamento nas áreas em que operamos é o cumprimento do critério da recuperação de custos, situação que para nós está, no essencial, conseguida. Os baixos níveis de endividamento e os bons resultados financeiros consecutivos permitem-nos igualmente aceder a financiamento bancário em muito boas condições e sem qualquer limitação ou constrangimento.

Estamos, portanto, muito melhor hoje do que no passado! Isso significa que estamos muito melhor preparados também para vencer os desafios, motivados para servir bem os nossos clientes, lado a lado com os nossos parceiros e munidos de recursos humanos e materiais adequados à nossa missão de serviço público. 

A nossa dívida vencida é de zero euros, ou seja, simplesmente não existe. Trata-se de um quadro financeiro confortável e bastante robusto. E nos prazos de pagamento melhorámos bastante.”

Qual foi a estratégia para inverter o quadro financeiro da EMAS neste período?

Foi necessário actuar a vários níveis, num trabalho difícil, mas muito desafiante. Desde logo, mexer na equipa, em toda a equipa, traçar um plano com várias fases, delegando responsabilidades acompanhadas da fixação clara de objectivos. Criámos grupos de trabalhos especiais para as áreas críticas como a água não facturada ou o controlo e acompanhamento financeiro. Apesar de liderar directamente estes grupos, foi importante uma integração horizontal, onde todos trabalhámos lado a lado em torno do objectivo central. Neste cenário, foi possível actuar ao nível da otimização de processos e redução de custos.

Chegaram a ponderar a possibilidade de aumentar as tarifas da água?

O aumento directo de receita não foi uma opção, exactamente para evitar agravar de forma generalizada a factura dos nossos clientes, razão pela qual neste período a componente da água não sofreu qualquer aumento para os clientes domésticos e o ajuste no saneamento teve um impacto na maioria dos casos pouco significativo. Os ganhos resultam, como não podia deixar de ser, na melhoria da eficiência, sem transferir para as pessoas e para as empresas o custo dos erros do passado. Um dos principais processos de mudança foi a redução de um dos nossos maiores gastos, a compra de água à AgdA por via da redução da nossa água não facturadada (água que se perdia por perdas físicas na rede ou não era corretamente medida ou contabilizada). Para isto foi determinante a redução de roturas e a optimização dos processos de monitorização e controlo. Foi possível, em três anos, passar de 29,9% em 2017 para menos de 20% em 2020.

Sente que a EMAS de Beja é hoje uma empresa mais bem preparada para os desafios do futuro?

É com toda a certeza, sem qualquer dúvida! Afirmo-o naturalmente com orgulho, mas ciente do esforço que todos fizeram (mais uma vez) para trazer para o rumo certo um parceiro estratégico para o concelho e para a região. É fundamental que se perceba o desafio que significa o serviço público e a verdadeira importância de se fazer a diferença, fazer bem, fazer mais e fazer melhor. É neste contexto de serviço público que nos sentimos confortáveis ao perceber que é possível criar valor e ajudar a construir algo que continuará a dar frutos no futuro. Temos desafios estruturais, que resultam, por exemplo, dos impactos decorrentes das alterações climáticas e da escassez hídrica que pode marcar o futuro da região, desafios operacionais dedicados a estabelecer uma relação adequada entre a oferta e a procura, mas também desafios geracionais, centrados na necessidade de passar a mensagem a todos sobre o verdadeiro valor da água.

Em termos de obras, quais as principais intervenções previstas para 2021?

O nosso orçamento para este ano assenta em investimentos próximos dos dois milhões de euros, que podem duplicar em caso de poderem ser diversificadas as fontes de financiamento. Estaremos centrados na renovação da rede de águas e águas residuais e em algumas intervenções de expansão. A intensificação dos projectos de telemetria e telegestão, a par da implementação de novas zonas de monitorização e controlo, marcarão também 2021. Teremos também seguramente intervenções em conjunto com o Município [de Beja] sempre que a intervenção em espaço público a isso aconselhe. Indirectamente, via AgdA, estão em fase de projecto duas grandes empreitadas destinadas a remodelar o abastecimento de água à cidade de Beja.

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Correio Alentejo

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