Memórias da Aldeia Nova de Ourique recuperadas em livro

José Manuel Dionísio deixou a Aldeia Nova de Ourique quando tinha apenas 16 anos, mas a aldeia nunca o deixou, nem mesmo quando a localidade ficou submersa pela água da albufeira do Monte da Rocha, a 11 de Junho de 1972.
Memórias que este ouriquense, radicado há 58 anos no zona da Grande Lisboa, recorda agora no livro Aldeia Nova de Ourique-Sua História, Sua Gente, lançado nesta sexta-feira, 20.
“Não é um livro de ‘fina-flor’, mas foi feito com os meus conhecimentos e com os dados que me forneceram. Acho que a Aldeia [Nova de Ourique] ficará a ser conhecida por pessoas que nunca a conheceram”, confidencia José Manuel Dionísio ao “CA”.
Quando Aldeia Nova de Ourique despareceu no fundo do Monte da Rocha, José Manuel Dionísio reconhece ter ficado “com aquela mágoa de uma pessoa ficar sem pátria”. Esse sentimento acabou por ser, precisamente, o “rastilho” que deu origem ao livro. Mas os anos passaram e só em 2004, quando se reformou da Sorefame, é que José Manuel Dionísio se lançou a fundo em Aldeia Nova de Ourique-Sua História, Sua Gente.
De início era para ser apenas um projecto pessoal do autor, sem a ambição de ser editado e assente nas suas memórias da aldeia e das gentes que conheceu até aos 16 anos. Uma obra íntima, de que haveria de imprimir algumas cópias para oferecer a familiares e amigos mais chegados.

“Lembro-me da pesca nas ribeiras, das banhocas nos açudes… Tenho boas memórias e entristecia-me que as coisas tivessem morrido ali, que não houvesse nada para divulgar a aldeia”, recorda José Manuel Dionísio.


Mas à medida que o trabalho ia evoluindo, José Manuel Dionísio começou a juntar as fotografias e outras histórias sobre a Aldeia Nova de Ourique que foi recolhendo com a ajuda de uma irmã mais velha, que viveu sempre na aldeia, e de outros familiares e conhecidos.
“Pensei que a aldeia não podia ficar sem qualquer registo e fui juntando tudo isso”, justifica José Manuel Dionísio, explicando que no livro, com a ajuda da irmã, até colocou um croquis da aldeia com as habitações existentes e as pessoas que viviam cada uma. “Não sei se estará tudo correcto ou não, mas é o que me foi transmitido pela minha irmã mais velha, que viveu lá quase até ao fim. E todas as outras dicas foram importantes para este livro”, diz.
O virar das páginas de Aldeia Nova de Ourique-Sua História, Sua Gente transporta-nos para outros tempos, com fotos dos antigos habitantes e de alguns momentos festivos. Há também poemas e até receitas de culinária. Tudo isto permite a José Manuel Dionísio reviver com emoção os tempos de criança, em que corria pelas ruas da localidade.
“Era um aldeia com uma vida extraordinária, com muito convívio entre as pessoas. Lembro-me de ser miúdo e ir para a taberna do meu padrinho ouvi-los a tocar e cantar ao despique [com a viola campaniça]. Lembro-me da pesca nas ribeiras, das banhocas nos açudes… Tenho boas memórias e entristecia-me que as coisas tivessem morrido ali, que não houvesse nada para divulgar a aldeia”, recorda.
É este afecto de José Manuel Dionísio pela Aldeia Nova de Ourique que o leva a visitar o Monte da Rocha sempre que pode… mesmo que nada se veja! Mas quando as paredes das antigas casas sobem à tona da água como agora, a saudade toma a forma de lágrimas. “Tento disfarçar um bocadinho, mas é complicado”, remata de voz embargada.

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Correio Alentejo

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