“Festival Terras sem Sombra é um caso transversal de serviço público”

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A vila de Mértola recebe, neste fim de semana, dias 25 e 26 de mais, o arranque da 20ª edição do festival Terras Sem Sombra, organizado pela associação Pedra Angular. Em entrevista ao “CA”, o presidente do festival, José António Falcão, revela as expectativas para a edição deste ano, que tem a Itália como país convidado.

A 20ª edição do festival Terras Sem Sombra (TSS) arranca neste sábado, 25, em Mértola, tendo como tema “‘Liberdade, quem a tem chama-lhe sua’: Autonomia, Emancipação e Independência na Música (Séculos XII/XXI)”. Qual a “mensagem” que pretendem transmitir?

O facto de a Revolução de Abril cumprir 50 anos é algo merecedor de reflexão, designadamente na perspetiva do acesso à cultura e, em particular, à música. O que nos parece hoje óbvio não o foi – cabe lembrá-lo – durante muito tempo, resulta de um conjunto de lentas conquistas e implicou o sofrimento de gerações sucessivas: poder escrever, interpretar ou simplesmente escutar certas obras musicais representa algo que não era líquido, em absoluto, para quem viveu antes da democracia. Meio século depois de 1974, ainda não passou a sê-lo para muitos dos nossos cidadãos, por falta de ocasiões objetivas de acesso à fruição cultural. Independentemente de estarem em Lisboa, em Chaves ou em São Brás de Alportel, os portugueses têm direito à cultura, como têm direito à educação, à habitação ou à saúde. Todavia, na prática não é assim que sucede. Persiste um fosso difícil de transpor quanto ao acesso à música erudita em inúmeros territórios de baixa densidade. Mesmo em localidades maiores, os sectores da sociedade com escassos recursos económicos ou a braços com problemas de integração ficam excluídos, em termos práticos, desse género de atividades artísticas. Não por falta de interesse, mas por carência de ofertas a que possam realmente aceder. Em Portugal, continua a haver cidadãos de primeira, de segunda e, até, de terceira, no que diz respeito à fruição de uma programação musical qualificada. Se acrescentarmos a isto outros obstáculos, como o elevado preço de algumas bilheteiras, não é difícil compreender que, neste âmbito, à semelhança do que sucede em várias áreas da vida cultural, “falta cumprir Abril”. A programação do TSS em 2024 propõe uma reflexão em torno destas questões e lança o desafio para um conhecimento mais aprofundado do meio rural como palco de experiências artísticas de certo modo únicas. Queremos dar a conhecer um Portugal genuíno, apaixonado pela música e, à sua maneira, cosmopolita e fiel às tradições. Nós próprios temos um enorme orgulho no Alentejo e queremos partilhar o melhor deste território.

Quais as expetativas em relação à edição deste ano do TSS?

Nota-se um grande entusiasmo, por parte do público do festival, com a possibilidade de escutar repertórios ainda pouco conhecidos e artistas que estão a marcar a diferença no plano internacional.  Há muita coisa a mudar no universo da música erudita, após o annus horribilis de 2021. Sopram ventos novos, não só do Oriente, onde o sentimento da vida ainda continua a ser uma manifestação artística que impregna tudo, mas também de países europeus que souberam reinventar a relação com a sua herança musical, como está a suceder em Itália, o país convidado do festival em 2024. A programação desenhada para este ano é deveras promissora, neste alargar de horizontes, desde a música antiga até ao âmago da criação do século XXI. Rompe com as rotinas do nosso quotidiano, lança reptos para compreender melhor a sociedade atual. Traz uma lufada de ar fresco.

Nenhuma região europeia digna desse nome pode afirmar-se, em termos territoriais, se não tiver uma temporada musical consistente, que é uma coisa bastante distinta de um ciclo de concertos.

Qual a mais-valia deste festival para o território do Alentejo?

Antes de mais, garantir uma temporada artística que abrange concelhos bastante representativos dos distritos de Portalegre, Évora e Beja, além da zona sul do distrito de Setúbal. Trata-se do único festival regional de música erudita. Nenhuma região europeia digna desse nome pode afirmar-se, em termos territoriais, se não tiver uma temporada musical consistente, que é uma coisa bastante distinta de um ciclo de concertos. Cumpridos 20 anos na história do festival, conquistaram-se públicos, criaram-se hábitos culturais, romperam-se obstáculos – por exemplo, nunca se tinha feito ópera a sério no Baixo Alentejo, um limite superado com a produção integral de “Onheama”, de João Guilherme Ripper, em Serpa. Temos hoje um Alentejo muito diferente, no que respeita à fruição da música erudita. O Terras sem Sombra é um caso transversal de serviço público. Deram-se também passos importantes na internacionalização do Alentejo, dentro e fora das nossas fronteiras. As “embaixadas” culturais, económicas e políticas da região, que não esqueceram a dimensão internacional, em Madrid. Sevilha, Budapeste, Washington, Praga ou, mais recentemente, Viena, trouxeram notoriedade à região. Há resultados palpáveis à vista, até do ponto de vista das exportações. O trabalho em rede faz, aqui, todo o sentido. Estamos gratos aos nossos parceiros por isso. O TSS, hoje, integra uma rede internacional da música erudita, onde o Alentejo já conseguiu uma presença consolidada. Mantemos uma particularidade, o cruzamento do projeto artístico com a valorização do património cultural, tanto material como imaterial, e com a salvaguarda da biodiversidade. As intervenções de grandes compositores e de excecionais intérpretes tem ajudado a salvar monumentos e bens culturais em risco e a preservar espécies e sítios protegidos, além de tornar mais sustentáveis as comunidades locais. É um trabalho discreto, modesto, assente em parcerias efetivas. Os resultados são palpáveis.

O festival perdeu, em 2023, o financiamento da Direção Geral das Artes. Como tem manter o evento nestas condições?

O TSS ficou muito bem pontuado nos apoios da Direção Geral das Artes em 2022, mas, tal como muitas outras estruturas, ao nível regional e nacional, não obteve apoio financeiro. Boas palavras, mas sem resultados práticos. Sucedeu o mesmo em 2023 e em 2024. Pelo menos no que diz respeito a uma programação regular de música erudita, o Alentejo foi posto de lado. Nunca se verificara um descalabro tão notório em termos de coesão territorial no acesso à cultura, ainda por cima na sequela dos problemas causados pela epidemia. Ante a incompreensão – ou o desprezo – pelo país real que isto significou, a sociedade civil e os municípios não cruzaram os braços, cerrando fileiras em torno do festival. Foi necessário procurar apoios noutras latitudes. Conseguimos suprir algumas lacunas com o apoio de voluntários e empresas locais, além da intensificação das parcerias internacionais. Mas a interrupção do apoio do Estado fez perder muito tempo, não ajudou à manutenção da infraestrutura artística nacional e teve consequências severas para o Alentejo, onde não existiam grandes alternativas. Foi necessário reduzir o leque de concelhos abrangidos e adiar a consolidação de uma equipa profissional. Podíamos ter ido muito mais longe, com um investimento reduzido. O que mais sacrifícios implicou, no entanto, foi o atraso das iniciativas destinadas à captação de novos públicos. Tornou-se necessário reduzir o trabalho com os mais novos, as famílias e as comunidades migrantes, mas estamos a retomá-lo. Confiamos que um novo ciclo possa estar mais focado nas verdadeiras necessidades do país e aposte mais na coesão territorial.

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