Custos de produção “disparam” na agricultura alentejana

Ernesto Fialho, 78 anos, agricultor na freguesia de Entradas (Castro Verde), já tem a sementeira deste ano em andamento. Os trabalhos têm decorrido como de costume, mas o investimento para a campanha de Outono-Inverno na sua exploração agrícola tem sido muito maior, devido ao aumento dos preços de fatores de produção como os combustíveis ou os adubos.

“Continuando assim não podemos semear”, desabafa este lavrador, que apesar de “não ser homem de chorar” e de ter as suas coisas “orientadas” não esconde que a atividade é cada vez mais complicada… e menos rentável. “Sinceramente, não sei onde é que isto vai parar”, diz.

Depois de anos e anos a lidar com a seca, a agricultura do Campo Branco debate-se agora com um novo (e grave) problema: os custos associados à atividade. Custos que são indispensáveis para manter as explorações em atividade e que “dispararam” nos últimos meses de forma galopante e, nalguns casos, quase insustentável.

Os exemplos desta realidade são mais que muitos: o gasóleo agrícola (verde) sofreu um agravamento de 44% entre outubro de 2020 e outubro de 2021 e os adubos usados nas sementeiras registaram aumentos que vão dos 82% aos 126%. As próprias alfaias agrícolas estão mais caras (cerca de 15%) e as rações utilizadas na pecuária também aumentaram na ordem dos 10 a 25%.

“Adubos e rações estão a aumentar todas as semanas! E tudo o que é alfaias ou forragens regista aumentos exorbitantes”, observa com preocupação o presidente da Associação de Agricultores do Campo Branco, José da Luz Pereira, garantindo que a situação “é neste momento dramática… muito dramática”.

“Os fatores de produção tinham um valor, mas este ano a subida foi significativa e não dá para compensar os ganhos que tivemos com a subida [do preço] dos cereais”, frisa por sua vez Rui Saturnino, de 40 anos.

Para este agricultor no Carregueiro (Aljustrel), só mesmo o facto de o Campo Branco ser uma área protegida e haver apoios à pratica de uma “agricultura sustentável e ecológica” permite que muitas explorações consigam subsistir. “Se vivermos só do que produzimos, com estas mudanças de preços, nenhuma exploração aqui seria sustentável”, reforça com preocupação.

“Morrer de pé”

Segundo o presidente da Associação de Agricultores do Campo Branco (AACB), o aumento dos custos com fatores de produção associado à seca dos últimos anos leva a que a situação nas explorações agrícolas da região seja quase insustentável.

“A situação já não era boa, mas lá se ia conseguindo aguentar… Mas agora é demais! Ainda houve uma subida no preço [de venda] dos cereais, que seria boa se os fatores de produção se mantivessem ao preço em que estavam. Mas os fatores de produção subiram astronomicamente e esse aumento que houve nos cereais ficou praticamente diluído”, revela José da Luz Pereira.

Este dirigente diz mesmo que, “neste momento, está a semear-se alguma coisas porque as pessoas sentem a obrigação de semear”. “As pessoas preferem ‘morrer de pé’ e nesse momento está-se a semear muito coisa sem utilizar adubos. Espera-se que chova, que as coisas nasçam e depois logo se faz qualquer coisa”, acrescenta.

Um quadro de dificuldades que, continua o presidente da AACB, é agravado pela falta de diálogo entre o Ministério da Agricultura, liderado por Maria do Céu Antunes, e as associações representativas do sector.

“Antigamente conseguíamos uma reunião através das autarquias ou de alguém da Direção Regional de Agricultura, apanhava-se o ministro aqui ou ali e tínhamos uma conversa. Mas com a mudança de política que houve neste Governo isso é impraticável… Nunca isto aconteceu”, lamenta José da Luz Pereira, concluindo: “A CAP cortou as relações com a ministra, outras [associações] fizeram o mesmo e não vejo vontade nenhuma de estas serem reatadas”.

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Correio Alentejo

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