Vírgula

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

A minha escola não começou com a compra da mala, dos cadernos, dos lápis, da borracha. Nem sequer começou com o abecedário, a junção das sílabas, dois mais dois, sujeito, verbo e complemento. A minha escola começou antes da matrícula, antes do livro de leitura, antes do mundo ter sequer seis anos.
A minha escola começou com uma Vírgula. Uma Vírgula pequenina.
Perto de minha casa, numa garagem, ao fim da tarde, Dona Catarina dava explicações aos alunos da escola primária. Lá se faziam os deveres: as contas, os problemas, as redacções. Apurava-se a caligrafia, decorriam ensaios do grupo coral da tabuada, ecoavam ditados sem réguas que os castigassem, aperfeiçoavam-se cópias, limavam-se feitios distraídos, substituíam-se ideias de ninhos e piões, decoravam-se rios e reis, aprendia-se a Pátria e o Ultramar. E a meio, às cinco e meia, comia-se pão com manteiga barrada com açúcar amarelo e bebia-se café com leite.
No tempo em que o marido da Dona Catarina tirava o carro da garagem às quatro horas da tarde para ser montada a sala de aula com quadro negro e tudo, eu ainda não andava na escola. Eu ia porque queria ter uma bata branca e lápis de cor e não havia televisão.
Sentava-me numa cadeira ao lado da mestre. Era o assistente do giz, o operário do apagador, o arrumador de cadernos, o pastor do relógio, o aparador de lápis, o encarregado da Vírgula.
Era essa a parte que eu mais gostava. Também era bom cantar a canção do dois, pintar a bandeira de Portugal e copiar por cima de papel vegetal, mas sem dúvida do que eu mais gostava era dos ditados. Por causa da Vírgula. Quando o som do giz branco comia o silêncio do quadro negro entoando a palavra Ditado, os alunos da quarta classe abriam os cadernos e eu ficava feliz. E a professora começava a ditar: “Parábola dos sete vimes. Era uma vez um pai que tinha sete filhos. Quando estava para morrer vírgula”. E aqui, precisamente aqui na vírgula, vinda da porta que dava para o quintal, uma cadela pequenina e franzina entrava em cena e ladrava três vezes. E Dona Catarina, dona da Vírgula e do ditado todo, mandava-a embora e lá ia eu, armado em pajem da pontuação, acompanhá-la até aos seus aposentos. E a cada breve respiração do complemento, que é como quem diz a cada vírgula, do lado do quintal dos diospiros maduros, lá vinha outra vez a Vírgula interromper a sintaxe do discurso. E nós ríamos todos muito. Que bom que era que uma frase não fosse só letras de ponta a ponta, pois assim as palavras vinham montadas em quatro patas e abanavam o rabo quando nos viam!
Mas um dia às quatro da tarde o carro não saiu da garagem. Eu esperei até ser noite, mas os motores do carro e da vida toda não pegaram. Ficaram quedos, mudos. Morreram como uma avó querida morre, de repente, durante o sono e nos deixa enterrados em solidão.
O pó veio e sentou-se nas cadeiras. O mofo ocupou as mesas todas. O tempo é que ditou as regras. O silêncio ouviu e calou – o silêncio não tem vírgulas para se poder rir. O giz amarelou. O açúcar amarelo amargou. O pão secou. O café, já sem leite, morreu de tanto luto. A data gelou no quadro. O relógio baixou os braços. Os diospiros gretaram de tanto doce. A porta prendeu o quintal. E a tabuada era apenas um multiplicador de fantasmas calados e errantes. Noves fora nada. Dona Catarina fechou a escola.
As razões sabia-as a minha mãe que só me disse que ia a um funeral. E que ficasse com a vizinha.
Eram quatro horas da tarde. Comecei a ditar. Em voz alta. O texto começava com uma vírgula.
Ainda hoje ouço os textos a ladrar três vezes a meio das frases.
Ponto final parágrafo. A Vírgula morreu.

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