Voto cansado

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Jorge Serafim

contador de histórias

Imagine-se um campeonato de futebol. Imagine-se que a conquista do título é feita mais à custa da falta de comparência dos adversários do que à custa do esforço directo para atingir os objectivos propostos. Imagine-se um campeonato ganho sobre a ausência de dois terços dos adversários. Cantar vitória sobre estas condições, seria continuar a coabitar demagogicamente com algo que já não existe. O ideal e o propósito da modalidade. Se é que alguma palavra destas tenha sentido usar no que concerne a ética e verdade desportiva. Nos vários processos eleitorais ocorridos temos vindo a deparar nos últimos anos com um descrédito acentuado do eleitorado face ao “dever” de cumprir o acto de votar. Sejamos claros, dois terços do país não votou nestas europeias, pouco menos nas últimas legislativas, mais coisa menos coisa nas últimas autárquicas. A democracia, segundo o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, é o governo em que o povo exerce a soberania. Ou o Sistema Político cujas acções atendem aos interesses populares. Ou o Governo no qual o povo toma as decisões importantes a respeito das políticas públicas, não de forma ocasional ou circunstancial, mas segundo princípios permanentes de legalidade. Ou o Sistema Político comprometido com a igualdade ou com a distribuição equitativa do poder entre todos os cidadãos. Ou o Governo que acata a vontade da maioria da população, embora respeitando os direitos e a livre expressão das minorias. E poderíamos continuar por diante, que palavras belas não faltam para retratar quadros mal elaborados. Aborrece-me e irrita-me profundamente a panóplia de analistas/jornalistas que enchem e preenchem as páginas dos órgãos de informação dia-a-dia com análises que roçam a burrice intelectual sobre vencedores e perdedores nos processos eleitorais. À excepção de alguns, que ainda os há, a falta de clarividência é extrema. Se a democracia é a capacidade dos indivíduos se unirem em torno de um bem-estar comum, então como se podem apontar iluminados vencedores se nem estes sabem repor a credulidade nas pessoas? Nem os ditos partidos pequenos, vão buscar eleitores abstémios. Como sorrir na noite do apuramento do escrutínio? Uns apuram favas e tremoços, outros engolem sapos e outros géneros de batráquios e ainda existem os que cinicamente governam e desgovernam no estilo gira-o-disco e toca o mesmo. E o mais curioso, deveras curioso, é que a alegria eufórica de alguns, não é ter um projecto político capaz de se superiorizar a outro no escrutínio. Estranhamente, há mais alegria quando se vence as sondagens. Só que estas, mesmo manipuladas não governam um país. A reflexão e a acção a fazer é outra. Só não vê quem é parvo!

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