Votar

Quinta-feira, 22 Maio, 2014

Vítor Encarnação

Tendo crescido já em democracia cedo conclui que a participação cívica, principalmente o direito ao voto, é algo de fundamental e incontornável.
Por oposição a uma ditadura, as eleições, enquanto escolha livre e consciente, constituem o padrão de uma sociedade mais justa. Não desperdicei as lições da História e aprendi a ler a vida e por isso desde que comecei a exercer o meu direito de voto nunca faltei a qualquer eleição fosse de que âmbito fosse. Votar tornou-se ao mesmo tempo um credo e uma razão.
Levo agora três décadas desta mania, deste feitio teimoso de acreditar que a minha opinião conta. Sempre acusei a abstenção, sempre a achei um desperdício, uma afronta e uma ofensa à própria liberdade.
Nunca estive percentualmente ausente das decisões. Perdendo ou ganhando, fiquei sempre com uma sensação de dever cumprido.
Completei assim três décadas enquanto membro activo desta causa.
Mas agora, pela primeira vez, duvido das minhas certezas. Duvido que este palavreado partidário e ofensivo tenha alguma coisa a ver com os princípios e os valores das democracias. Duvido que as mentiras, as esponjas que tentam apagar as memórias, os mesmos rostos de sempre, as mãos que lavam as outras e os discursos desligados da realidade contribuam para o fortalecimento do respeito e da confiança. Duvido agora que as promessas, os programas e as alternâncias tenham substância. Duvido agora, tantas eleições e tantas ilusões depois, que valha a pena.
Desta vez ainda vou fazer uma cruz. Mas de cada vez que lá vou, confesso que ela fica mais pesada. Deve ser da idade e da desilusão.

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