Vida pública a quanto obrigas

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

A vida pública obriga a muitos sacrifícios e, acima de tudo, a uma interminável exposição aos olhos de toda a gente. A partir do momento em que alguém se torna coisa pública, sabe que vai carregar, diariamente, esse fardo. E ao princípio até deve achar engraçado. Pelo menos a julgar pelos beijinhos nos mercados das peixeiras que enchem as campanhas eleitorais; o ter de apertar as mãos calejadas aos pequenos agricultores; o cumprimentar na rua quem passa quando se tem que entregar um jornal ou um prospecto da campanha e ter de mamar com um par de beijos lambuzados daquelas velhotitas mais efusivas. Mas não são só os políticos que sofrem com essas obrigações de imagem pública. Veja-se o caso dos jogadores de futebol e a ginástica que têm de fazer em prol da imagem, para aguentar uma cotação elevada no mercado. Depois, quando se chega ao topo, ou quando se está na mó de cima, todo este jogo de charme desaparece. E desaparece de tal forma que vem ao de cima aquilo que cada um é na realidade, transpirando, na maioria dos casos, a falta de cultura cívica e democrática que está na base da cultura de um país que não absorveu o que de mais profundo e espantoso lhe trouxe a Democracia. O respeito pelo vizinho do lado e o aprender a comunicar. A chegada da selecção de todos nós ao Palácio de Belém é bem sinónimo de algum despeito que tem marcado a atitude de superioridade daquele grupo. Acima de tudo porque sabe que seja qual for o resultado, serão pagos a peso de ouro e adorados como deuses. Nem um aceno às milhares de pessoas que enchiam aqueles passeios, um sorriso, um autógrafo. Nada. Sair do autocarro e correr para o interior do Palácio. Mas se dos nossos meninos não espero muito mais do que isso, para além de que eles apesar de tudo sabem jogar e que vão trazer o caneco, custa-me mais ver o jogo de cintura dos nossos políticos e, neste caso particular, da recente fuga (ridícula) através dos campos do ministro da Agricultura. Para não ter de encarar 30 ou 40 pescadores, que apenas pretendem mostrar a situação em que o sector se encontra enquanto o senhor ministro apanha o lixo dos caçadores, envia a comitiva pelos caminhos por onde tinham chegado e safa-se de jeep a corta-mato. Isto é não apenas ridículo como também reflexo de falta de cultura democrática e do assumir da causa pública, que se agrava a partir do momento em que afirma, naquela sua voz de aparente acalmia e de quem domina a estratosfera (lol), de que enquanto houver greve não há diálogo. Isto não é a cultura democrática que ansiamos de um dirigente de esquerda. Já nos chega o ter que pensar que a Ferreira Leite vai voltar. Ufa…

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