Transportes públicos

Sexta-feira, 27 Maio, 2022

Vitor Encarnação

Escritor

A base de dados PORDATA diz-nos que Portugal tinha em 1972 apenas sessenta e dois quilómetros de autoestradas. Em 1990 ficaram concluídos trezentos e três quilómetros e em 2021 já éramos o quarto país a nível europeu e o segundo país da União Europeia com mais autoestradas por habitante, perfazendo um total de mais de três mil quilómetros, apenas atrás de Espanha, Alemanha e França, países com dimensões geográficas muito maiores.
Tomara nós que nos pudéssemos comparar com esses países, para não falarmos de outros que estão atrás de nós nesse ranking do alcatrão, noutros aspetos estruturantes da vida, tais como educação, habitação, saúde, cultura, produtividade, ordenados.
A década de noventa, fortemente marcada pela concessão de fundos europeus, foi pródiga em betão e alcatrão.
Junte-se a isto uma mentalidade nacional marcadamente consumista, exaltada, reforçada pelas políticas económicas e facilitada pelos créditos bancários, desejosa de ter carro novo, de ter habitação própria, de ter uma segunda habitação, de fazer férias nas praias algarvias, de abandonar a triste figura de sermos pobres e provincianos.
As autoestradas tornaram-se um símbolo da modernidade do país. Trouxeram a ilusão de proximidade e de coesão, trouxeram velocidade, trouxeram estatuto, promoveram o transporte individual como se este fosse a única forma de viajar e todos tivessem acesso a ele de igual modo.
O problema é que esta abordagem liberal, esta vertigem de país novo-rico, esqueceu os transportes públicos, nunca neles investiu de uma forma séria. Manteve-os nas cidades e nas zonas suburbanas por força das características sociais das populações e manteve-os nas ligações entre regiões litorais tendo em conta o turismo e as atividades económicas.
Hoje em dia, e em certas regiões do país, viajar de transportes públicos é difícil ou até mesmo impossível. Se olharmos para o Alentejo verificamos que as ligações dentro ou entre concelhos são poucas ou inexistentes. Normalmente o que se invoca é que toda a gente tem carro e os transportes públicos só dão prejuízo. Admito que isso seja verdade em muitos casos, mas também quero crer que a nossa sociedade foi educada a olhar para o transporte público como algo conotado com uma condição social inferior da qual todos de alguma forma queremos fugir.
Eu também fui educado assim, direcionaram-me para tal entendimento, tornei-me profissional e economicamente independente no início dos anos noventa e aprendi a organizar a minha vida pela cartilha da importância e do mérito da propriedade privada.
Desde que comprei o meu primeiro carro nunca mais tinha viajado de transportes públicos.
Quis a circunstância que por estes dias tivesse de ir a Lisboa. Ao fazer as contas ao combustível e às portagens da autoestrada, quando pensei nas filas para entrar na cidade e na extrema dificuldade em arranjar lugar para estacionar, conclui que uma viagem de comboio ficaria muito mais barata e mais cómoda do que ir de carro.
Deixem-me introduzir uma nota prévia que faz toda a diferença: vivo em Ourique, sou portanto um privilegiado porque resido perto do eixo Algarve-Lisboa. Se vivesse noutra zona do Alentejo, sublinhe-se que na maior parte delas, a partir daqui este texto deixava de existir.
No dia aprazado, por acaso a uma sexta-feira, saí de casa às 8h00 e apanhei o comboio Alfa Pendular às 8h23 na Estação da Funcheira. Noventa e três minutos depois, às 9h56, estava a chegar à Estação de Entrecampos e às 10h17 estava nos Restauradores. O comboio tem bancos confortáveis, tem tomadas elétricas, tem mesas rebatíveis que permitem trabalhar, tem bar, tem casa de banho e deixou-me no centro da cidade. Tratei dos meus assuntos e às 14h10 estava a fazer a viagem de regresso. Duas horas depois estava em casa.
O comboio ia cheio e veio cheio, não haverá portanto, presumo, qualquer tipo de prejuízo para o erário público. Por ser sexta-feira pude também constatar, para além dos turistas, o elevado número de estudantes universitários de Ourique, Castro Verde, Odemira e Almodôvar que utilizam o comboio nas suas deslocações.
Frise-se que o citado Alfa Pendular esteve quase a deixar de parar na Estação da Funcheira em 2012 e só as diligências dos, à data, presidentes das câmaras municipais de Ourique e Odemira garantiram a manutenção dos serviços nas estações de Santa Clara/Sabóia e Funcheira. Isso teria originado que entre Ermidas-Sado e Tunes, numa distância superior a cem quilómetros, deixaria de existir um transporte ferroviário mais rápido e mais confortável, obrigando centenas de cidadãos a procurar alternativas mais caras, mais complexas e mais poluentes.
Apesar de não se vislumbrar qualquer vontade política em dotar a região de transportes públicos de qualidade, o horizonte das possibilidades é sempre de décadas, é preciso afirmar que o Estado tem o dever de, independentemente do número de eleitores e de eleitos, promover a coesão territorial.
Essa mudança de paradigma por parte do Governo através do investimento nos transportes públicos respeitaria os direitos e discriminaria positivamente todos aqueles que mantêm vivo o interior do país.
Os cidadãos são fruto das suas circunstâncias. Mesmo aqueles que agora não utilizam transportes coletivos seriam certamente conquistados pelas vantagens que eles proporcionam.
São necessárias e urgentes quer uma inversão de prioridades por parte de quem decide, quer uma reeducação das pessoas relativamente às formas de mobilidade dentro do território nacional.
Qualquer país europeu equitativo e coeso tem transportes públicos de qualidade. Uma vez aplicada essa evidência ao nosso país, o carro e as autoestradas, esses símbolos do Portugal moderno, seriam apenas uma opção e não um modo de vida.

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