Viagem ao Japão (1)

Sexta-feira, 18 Fevereiro, 2022

Napoleão Mira

Escritor

Regresso às minhas notas de viagem feitas crónicas, escritas assim de sopetão, como se quem me lê pudesse aterrar no caos que é por vezes o meu cérebro.
Durante as próximas edições, dar-lhe-ei conta de uma viagem ao surpreendente Japão, um país onde a palavra progresso casa na perfeição com outra chamada tradição. O resultado é o desejo de lá voltar e enriquecer o meu conhecimento sobre este país singular.
Desta feita não viajo apenas com a minha musa. Trazemos connosco os companheiros de muitas luas, João António Domingues e Isaura Mendes, que me mais tarde vos apresentarei.
Estamos a caminho de Tóquio, no Japão, onde iremos descobrir, a quatro, as maravilhas de um país que há muito constava do cardápio dos locais a visitar.
É claro que a primeira crónica, o primeiro relato, é feito a bordo deste A760, uma bisarma voadora.
Se retirarmos as cerca de duas horas de atraso com que fomos presenteamos no aeroporto Charles de Gaulle, tudo tem corrido na perfeição. Tão perfeito, tão perfeito que, no momento em que escrevo há largas horas que não sei da Natália, logo com mais um lugar vazio, logo com mais espaço para interagir com o passageiro do lugar contíguo, um simpático japonês de regresso a casa. Ugata de seu nome, tem quase 90 anos, possui a calma olímpica que é atributo destas gentes, simpático e, se bem percebi, ainda é investigador/cientista na área das frutas, causa a que se dedicou a vida inteira. Fala um fluente espanhol, o que nos permite comunicar sem grandes problemas.
Sei que vai de visita aos familiares, duas filhas e três netos, sendo que uma das filhas é cega e, pasme-se, apaixonada por fado, coisa que toca desde que por ele se apaixonou numa ida ao Bairro Alto, por alturas de 79 do século passado.
Foi, e continua ser, um mistério o facto desta gente de olhos rasgados e sorriso fácil, terem para com o nosso Fado uma relação tão próxima, tão próxima, que os leva a viajar a Lisboa, a adquirir guitarras portuguesas, a aprender a língua e a dedicar-se a este cante bairrista e de marinhagem.
Ugata lembra-se como se hoje fora dessa noite de descoberta, dessa música bizarra que o enfeitiçou. Confessa que  conhece Amália e mais umas quantas fadistas e que tem muitas saudades de regressar a Lisboa e deixar-se internar por esses bairros onde o Fado está mais vivo que nunca e de onde irrompem as novas vozes que hão de levar mais longe e mais alto esta  música singular. Segredo-lhe que a melhor altura para regressar será em setembro, pois nessa altura decorre o grandioso Santa Casa Alfama Festival, a este particular dedicado. E assim, de uma só cajadada, matava uns quantos coelhos. Não sei se com os novos ditames linguístico/políticos a frase anterior ainda sobreviverá. Por hora, deixemo-la assim, em jeito de nano-provocação.

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