Vem aí o calhau…

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Jorge Serafim

contador de histórias

Vamos lá a ver se é desta! Ao menos o calhau já foi lançado. E pe-los vistos simbolicamente tem mais peso do que qualquer coisa. Quando o calhau vai a semear à terra é porque não há volta a dar-lhe. Nascem aviões como malmequeres em fl or. Já cá tivemos um primeiro-ministro há meia dúzia de anos atrás nas comemorações do dia de Portugal (Recorda-se estimado leitor?) efectuadas na nossa rica cidade, a jurar a pés juntos que sim, que o aeroporto em dois anos estava levantado. Mas não, mais depressa levantou ele para Bruxelas… Pregou palavra, mas não deixou calhau… O problema foi esse… E a malta da terra sem um bajolinho colado à terra, uma de areia e duas de cimento não vai em conversa fiada. Viu-se logo nos imediatos que a coisa cheirava a esturro. Este de agora é diferente. Não dispensa o dito cujo. Escolhido a dedo, encontrado um com o perfil adequado é favor marcar data e hora para peregrinar à santíssima romaria. Contactam-se jornais, rádios, presidentes de junta, de câmaras e respectivos vereadores, associações de columbofilia, caçadores, pescadores, reformados, aleijados, culturais, recreativas, de bombeiros, de agricultores, de estudantes, enf m tudo o que forem forças vivas da região para que espalhem a notícia: Vem aí o Calhau! E a imprensa escrita em letras gordas de manchete, daquelas atascadas em calorias, fará eco de tão garbosa acção: Com o Calhau semeado não há futuro que não cresça! E os cronistas analisarão, porque não o calhau, somente o calhau, a monumento nacional?! E independentemente das condições morfológicas do terreno, das condições meteorológicas do dia, pelo calhau há que sofrer, padecer, aguentar… Mesmo que os campos estejam atascados em dejectos cometidos por ovinos animais que não respeitando o simbolismo da coisa resolvem evacuar das profundezas de suas entranhas o mais puro desprezo pelo futuro que se está a lançar. Mesmo que os veículos do Ministério sejam obrigados a circular em rodovias, vulgo veredas, nada adequadas para tão refinados amortecedores, mesmo que tenham que sofrer horas e horas sem fim nem piedade o nó sufocante da gravata, mesmo que o verniz dos sapatos vá à vida sem volta na ponta, há que afirmá-lo a pulmão cheio na hora do mais que estudado e decorado discurso: “Aqui, perante vós, ilustres entidades da região, neste momento carregado de grande sentido para o desenvolvimento económico do nosso Alentejo, trago-vos uma mensagem de esperança, Viva o Calhau, Abaixo a reacção!”

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