Urgência cívica

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Munhoz Frade

médico

Tenho para mim que entre nós o conceito de “sociedade civil” nunca foi muito popular. A solidariedade, essa é ciclicamente erigida nos media, aparentando-se então mais como uma moda do que como o relembrar de um valor social perene.
Longe vão os tempos em que a tríplice divisa “Liberdade/Igualdade/Fraternidade” foi gravada como ideal humanista. Longínquos nos parecem esses tempos, do chamado Século das Luzes, e assim equivocamente nos parecem por termos por adquiridos tais valores e princípios. Para que bem se entenda: os da dignidade e dos direitos humanos.
Porém, na verdade, tendo sido formulados há três séculos, esses valores permanecem como ideais norteadores, objectivos por atingir, ainda distantes – até em muitas das civilizações ditas avançadas dos dias de hoje.
Durante alguns séculos as esperanças dos cidadãos conferiam-se na expectativa de que os Estados garantissem a protecção social, exercendo na superestrutura a função “trissectriz” apontada pela Revolução Francesa. Descansaram os cidadãos, confiados no seu papel de contribuintes, para que fosse possível a política de “garantismo” social. Afinal, “o modelo esgotou-se”…
São estas umas reflexões pouco científicas, próprias da perplexidade do dito “homem-da-rua”. Daquele que vê recuar os apoios do Estado àquelas que sempre foram consideradas como as prioridades, obrigatórias, sociais. Está o desassossego instalado…
Vendo a inexorabilidade do roubo diariamente perpetrado pelos mercados financeiros, descrente das intervenções partidariamente mediadas, os cidadãos vêem-se instados a acções de cariz mais directo. Não só de protesto e contestação política, com a força espantosa que temos assistido onde menos seria de esperar, mas também de organização e defesa de estruturas e bens de suporte social, não governamentais, de voluntariado, de cidadania.
Os serviços públicos de saúde são verdadeiramente vocacionados como protectores de fragilidades sociais. Quem duvida que a doença fragiliza a condição social e que a pobreza favorece a doença?
Defender os serviços de saúde públicos constitui-se assim como uma necessidade social absoluta – uma verdadeira urgência cívica.

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