É urgente o amor!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Maria Fernanda Romba

Dantes, em tempos que, de tão recuados, quase parecem pré-históricos, falava-se de amor. E era bonito falar de amor. As pessoas apaixonavam-se, eram felizes porque estavam apaixonadas e escreviam cartas longas, páginas e páginas dum assunto que sendo o mesmo, podia ser dito e escrito de tantas maneiras que parecia (ou era?) inesgotável.
Hoje, mudados os tempos e as vontades porque todo o mundo é composto de mudança, as pessoas continuam a enamorar-se, mas quando se enamoram, não falam com orgulho e felicidade desse amor, como se estar apaixonado e gostar apenas duma pessoa, em vez de várias ao mesmo tempo, tivesse, definitivamente, passado de moda. E não escrevem cartas de amor. Mandam “sms” que não podem guardar, ciosamente, numa caixa, nem atá-las com um laço rosa que dá prazer desatar para reler. E quando se referem à pessoa amada, não o fazem com o orgulho dos que sabem ter consigo “o melhor do mundo”, antes dizem, como quem exibe um troféu, “ando com a(o)…”
“Andar com..” ou “amar a(o)…” não é a mesma coisa, mesmo tendo em conta que entre uma forma de estar e outra, nos separam mundos. E tempos.
Acredito que quem “anda com” seja capaz de descobrir que ama durante o “trajecto”. Mas quem ama e assume que ama, com pudor ou despudoradamente, já começou a amar antes de iniciar o “percurso” e a sua felicidade é a felicidade do outro. Por isso, embora sabendo quantos mistérios encerra a mente humana, a maior parte ainda muito longe de podermos entender ou descodificar, não posso deixar de preocupar-me, enquanto mulher e cidadã, com as notícias de tantos casos de violência doméstica, atingindo mulheres cada vez mais jovens. Nas últimas semanas, os relatos que nos chegaram, tiveram, todos eles, o pior desfecho, culminando com a morte das jovens às mãos dos namorados. Durante o ano de 2009, registaram-se já 42 tentativas de homicídio, com 26 vítimas mortais. O que esteve por detrás destes casos? O amor? Talvez atitudes exacerbadas de posse. Talvez ciúmes. Talvez dificuldade em perceber quem é o outro, o que significa para nós, que direitos tem. Talvez.
No momento em que escrevo, a televisão dá conta de outra notícia sobre um padre de Celorico de Baixo que se apaixonou por uma jovem e fugiu com a sua amada para Espanha. E termina a notícia com uma pergunta – Amor ou pecado?
Embora a pergunta não me tenha sido colocada, directamente, apetece-me responder – Amor, sem dúvida! Pecado, porquê? Pecam os outros homens e mulheres que amam? O amor é bom ou é mau? Se é bom, como pode ser pecado?
A pergunta relança, afinal, a questão, sempre adiada, do casamento dos padres. Em pleno século XXI, mudados que estão tempos e vontades, é tempo da Igreja discutir, com abertura, esta questão. Os padres, escolhendo como forma de vida, estar ao serviço das pessoas e das comunidades, difundindo a sua fé, têm direito a amar não só a Deus. E serem felizes. Prefiro, sem sombra de dúvida, esta notícia às que relatam cenas de violência, intolerância e ódio. E põem em causa a dignidade das mulheres enquanto seres humanos.
Se trouxermos aos bancos da escola uma matéria tão importante como a educação sexual, talvez tenhamos que reformular o programa e introduzir, antes dessa, uma “cadeira” que ensine os nossos jovens a amar. Com o coração.
Porque é urgente o amor!

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