Uma OPA à mediocridade

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

É vulgar no início de cada ano, ouvir as chamadas “figuras públicas” expressarem os seus votos sobre o nosso futuro. Desde o fim das guerras e da pobreza à realização dos maiores desejos pessoais, vale tudo. Tal como nas entrevistas às “misses”, durante os cada vez mais frequentes concursos e antes de borrarem a pintura da cara com as lágrimas de surpresa pela coroação. Em Portugal, que se afasta cada vez mais da média europeia em todos os sectores e pelos piores motivos, até a Lili Caneças e o <i>marchand </i>Castelo Branco botam faladura, como sempre, em termos pedagógicos e comoventes.
Por mim, iniciei o ano de 2007 visitando a exposição de Amadeu Souza Cardoso na Gulbenkian. Felizmente que temos em Portugal, para além da fauna flutuante dos “Big Brothers”, artistas fabulosos e de dimensão mundial, como é o caso deste nosso pintor de Manhufe/ Amarante, que a par dos maiores vultos da pintura “Impressionista”, também deambulou por Paris no início do século XX. E talvez aquilo que mais nos impressione na quantidade e na qualidade da sua obra é o facto de ter morrido aos 31 anos, tal como Van Gohg só pintou até aos 37, Eça escreveu até aos 45, e há poucos dias se estreou uma peça inédita de Wolfgang Mozart em Salzburg, teria o compositor entre 6 e 12 anos. Embora se tratem de génios, nasceram num tempo em que a criatividade não se perdia nas “Play Stations” ou a sua educação musical, literária ou de pintura não era limitada pelas sucessivas “reformas pedagógicas” dos medíocres e falsos agentes culturais dos nossos tempos. Amadeu Souza Cardoso não se quis ligar a nenhuma escola, quis ser inovador, foi um lutador, mas morreu precocemente sem ver a sua obra reconhecida. Passados 100 anos o reconhecimento acontece, sobretudo porque Amadeu Souza Cardoso foi um dos que venceu a mediocridade.
É na evolução cultural que o futuro da cidade de Beja, ou de Portugal, deve ser avaliado pela cidade ou pelos portugueses. Apostar num pólo universitário gerador de mais-valias, que se possam fixar em Beja por incentivos ao trabalho no interior, capazes de desenvolverem projectos que criem riqueza e emprego. Este caminho é o da aposta e do investimento, em vez das comparações provincianas com Évora, já que o desenvolvimento real de uma região, obriga o Estado a fornecê-la com os serviços adequados. Todos sabem que a criação de um novo bairro arrasta o aparecimento de novos cafés, cabeleireiros, supermercados, etc.
O distrito de Beja tem os seus representantes legais, com pessoas competentes para o fazer. Desde o Governo Civil à Câmara Municipal, do Nerbe à Associação de Comerciantes, não esquecendo as associações do mundo rural, há muito mais para fazer do que para comparar. Os imensos casos de sucesso deste país, pessoais e colectivos, surgiram por apostas na capacidade de trabalho, na ideia de novos mercados e novos produtos, na competência de novas culturas empresariais.
E porque também há boas notícias, devo aqui realçar a abertura da nova Unidade de Diálise do Hospital de Beja, no início deste ano. A partir de agora, todos os doentes do nosso distrito que necessitem de Diálise têm o seu tratamento assegurado na nova Unidade, equipada com tecnologia de ponta e capacidade para novos doentes durante muitos anos. Tanto o transporte dos doentes internados no Hospital para a nova Unidade, como o facto de não voltar a ser necessário transferir doentes para outros distritos, são dois ganhos de qualidade importantes, que os doentes de Beja já mereciam. A exploração privada da Unidade continua, como até aqui, a ser feita pela Fresenius, cujo padrão de qualidade de tratamento beneficia os nossos doentes há mais de 15 anos. Aguardemos agora pelo novo Hospital de Dia para os doentes oncológicos e, porque não, pela segunda fase do Hospital.
E quanto ao país, todos nós gostaríamos que houvesse menos devastação florestal com os incêndios de Verão ou menos cheias quando chove dois ou três dias seguidos. Serão importantes as medidas que o Governo está a tomar. Mas mais importante será a evolução cultural das pessoas, que atenuando as várias e gritantes diferenças entre os diversos estratos sociais, fará desaparecer as ganâncias do lucro, que estão por trás da maioria deste crimes ecológicos.
E isto leva-nos a dizer que é este também o único caminho para evitar a derrocada ambiental, que está cada vez mais perto e visível apesar da cegueira dalguns políticos. A falta de neve nas várias estâncias de Inverno, este ano, são mais um sério aviso, bem como as ondas de calor em países com temperatura moderada. Definitivamente, a ganância de poucos não pode tornar impossível a sobrevivência da maioria, porque de facto é disso que se trata.
Por isso, mais importante do que desejar um Bom Ano é desejar um Bom Futuro para Portugal e para o Mundo. Os observadores mais sérios e atentos, têm destacado a corajosa persistência da Ministra da Educação em lutar contra a mediocridade que se instalou nas nossas escolas e no ensino. A luta terá que ser assumida por todos nós, para evitar caminhos de difícil retorno.
A minha solidariedade e o meu apoio ao “sim” no referendo sobre o aborto.

<b>P.S.- </b>Todos nós gostamos de ver David a derrotar Golias. A propósito do recente FC Porto – Atlético, aquele penalti no último minuto, tira certamente as dúvidas a quem não acredita nos “apitos dourados”.

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