Uma OPA ao ano 2008

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

No início de um novo ano, e apesar da pequena dimensão de cada um de nós, é lícito termos os nossos sonhos, como teve Luther King, para lançarmos as nossas OPA’s de erradicação sobre o que vai mal neste mundo cada vez mais perigoso.
A nível internacional, são sem dúvida o terrorismo e os crimes ambientais aqueles que mais nos preocupam e já afectam o nosso dia a dia.
Os atentados diários no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão, no Egipto, na Argélia e se calhar aqui ao nosso lado, dão-nos uma insegurança que é terrível e que não sabemos quando vai ter fim. A morte violenta e estúpida da senhora Benazir Butho, mostram que já não há barreiras ao ódio racial, religioso e tribal. Quando hoje entramos no metro, num autocarro ou num avião, somos candidatos a vítimas daqueles que trocaram o valor da vida pela banalização da morte.
Naturalmente que há causas para o terrorismo, algumas duvidosas, mas que sejam quais forem, nunca podem justificar a carnificina de inocentes. E a União Europeia, que tem falhado em tantas coisas, tem olhado a medo este dossier, jogando frequentemente nos alertas máximos e à defesa, quando me parece que o terrorismo tem de ser contra atacado nas mais diversas frentes. Os chamados mártires bombistas acabam por morrer como os inocentes que eles matam. Os mandantes da retaguarda, que normalmente aparecem com a sua bíblia na mão, vão para já saindo ilesos e impunes.
Para além do terrorismo humano, temos o terrorismo ambiental das alterações climáticas cada vez mais visíveis, que vão matando cada vez mais gente através das catástrofes naturais que são provocados pela actividade do homem. O degelo dos glaciares provocado pelo aquecimento global, por sua vez provocado pela progressiva deposição de CO2, responsável pelo anormal aumento de catástrofes “naturais”, parece ser apenas uma etapa precedente de uma pior, que será a libertação do gás metano, que poderá tornar a vida humana inviável à superfície da terra. E este perigoso caminho que é de todos conhecido não tem, para já, caminho de retorno, porque os países industrializados (e não é só a América), não querem trocar o seu desenvolvimento e bem estar actual das suas populações pela salvaguarda futura das próximas gerações. E o problema é que quanto mais tarde acordarem a ver vamos se ainda se vai a tempo.
Oxalá em 2008 se dêem passos racionais e seguros tanto na abordagem do chamado terrorismo como na abordagem das alterações climáticas.
Quanto a Portugal, lançaria em 2008 duas OPA’s. A primeira em relação às crescentes desigualdades sociais. A segunda à corrupção que paradoxalmente alastra numa sociedade aparentemente democrática
Sobre as desigualdades sociais, gostava de saudar a coragem do sr. Presidente da República ao denunciar os salários imorais de tantos gestores públicos. E a curiosa reacção de dois dos actuais “marretas” televisivos ( Pacheco Pereira e Lobo Xavier), preocupados se calhar com a divulgação das sumptuosas remunerações que recebem para debitarem umas patacoadas durante uma hora de televisão. Dizem eles que o problema não são os que ganham muito, mas sim aqueles que ganham pouco. Naturalmente. Mas dá que pensar como é que num país pobre e endividado como o nosso, os tais gestores ganhem mais do que os gestores dos países ricos. É uma questão moral e de justiça social.
Quanto à corrupção, é preocupante aquilo que ficámos a saber que se passava na Câmara de Lisboa. Está de parabéns o seu novo presidente, António Costa, e oxalá vá até ao fim na sua acção moralizadora, para que neste país a culpa não continue a morrer solteira. E porque todos sabemos, os esquemas agora suspeitos na Câmara de Lisboa grassam por aí a cada esquina, sendo uma das causas cada vez mais importantes no agravar das diferenças sociais. Teremos todos de estar atentos e actuantes.
E finalmente, sobre as cidades do nosso país e sobre Beja, lançaria uma OPA sobre a revitalização do comércio.
Há pouco tempo fui a Viana do Castelo, minha cidade natal. Atravessei parte da cidade a pé para ir à Ourivesaria Freitas, alvo de assalto há alguns meses atrás, profusamente noticiado na imprensa, e onde foi morto um dos assaltantes. Pelo caminho passei por dezenas de lojas do comércio local, em que não vi um único cliente. Explicou-me o sr. Freitas, dono da ourivesaria, que a população vai toda para o Fórum, que é o Modelo lá do sítio, mas onde se passeia mais do que se compra. Os próprios autocarros deixaram de parar na cidade, nas paragens habituais, para pararem no Fórum, onde deixam directamente as pessoas. Engraçado este país, onde toda a gente fala em defender e ajudar os comerciantes mas todos vão comprar às grandes superfícies ou às lojas dos chineses.
Vão crescendo as grandes superfícies e vão desaparecendo as lojas do comércio tradicional. Somos nós os responsáveis por esta espécie de “terrorismo urbano”, que altera o “ambiente” das nossas cidades.

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