Uma lição de cidadania

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

José Filipe Murteira

professor do Ensino Secundário

Quando, no passado dia 18 de Janeiro, na sequência de uma notícia que ouvira nas rádios locais, me dirigi à Biblioteca de Beja, confesso que ia um pouco apreensivo. Porque pensei que o tema (o fim do Intercidades para Lisboa) não era suficientemente mobilizador e porque, a exemplo de tantas reuniões públicas em que tenho participado, esta se arriscava a ser mais uma em que as discussões estéreis e as divisões entre os intervenientes conduziriam ao seu fracasso, sem conclusões nem decisões.
Afinal, enganei-me redondamente, não só no que se passou nessa noite, mas em todos os momentos que se seguiram: cidadãos que se mobilizaram em defesa de um direito que alguém lhes pretende retirar, dando a sua opinião e ouvindo a dos outros, concordando ou discordando, mas sempre aceitando as decisões da maioria.
Tem sido uma grande lição de cidadania, correspondida de forma entusiástica pela população, nas mais de quinze mil assinaturas recolhidas e nas duas concentrações já verificadas.
Mas a acção deste grupo de cidadãos (que teve um dos seus momentos mais altos no dia das eleições presidenciais, com o início da recolha das assinaturas) chegou também às entidades locais, regionais e nacionais, bem como à comunicação social (realce para a local, sempre presente, desde a primeira hora).
A Assembleia Municipal de Beja aprovou, por unanimidade, uma moção de apoio e marcou a segunda concentração; a Assembleia da República, através do seu presidente e de todos os grupos parlamentares, acolheu de forma muito positiva a petição (o que se reflectiu na rapidez pouco usual em que a Comissão de Obras Públicas e Transportes ouviu, em audição, os primeiros subscritores, o ministro e os dois secretários de Estado); finalmente, baixou já à respectiva comissão o projecto de resolução apresentado pelos Verdes, com vista à posterior discussão e votação em plenário na Assembleia da República (o que poderá ser atrasado face à actual conjuntura política).
Ou seja, um acto espontâneo de democracia participativa foi reconhecido e correspondido pelos órgãos eleitos da democracia representativa, num claro exemplo de que vale a pena os cidadãos mobilizarem-se na defesa das causas que consideram justas.
Para além destas iniciativas, houve audiências com o governador civil e com o secretário de Estado dos Transportes, bem como com outras entidades, que têm reconhecido as razões deste movimento de cidadãos. Excepto, claro, o conselho de administração da CP.
E afinal, quais as razões deste despertar cívico, de uma cidade e de uma região?
Durante décadas sofremos com a mudança do comboio para o barco, no Barreiro. Com a abertura ao tráfego ferroviário na Ponte 25 de Abril, esse suplício terminou e, quando a linha foi encerrada para obras, em Maio de 2010, os habitantes de Beja (mas também os de Cuba, de Alvito e de Viana do Alentejo) tinham ligações rápidas, confortáveis e sem transbordos. Um “privilégio” que a CP quer agora retirar, voltando atrás com a palavra de que, finalizadas as obras, voltaríamos a ter as ligações existentes.
Contra isso, mas sobretudo contra a subalternização a que Beja tem sido sujeita nos últimos anos, é que vai continuar o nosso acto de cidadania activa, através da participação democrática de todos, fruto dessa bela lição.

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