Uma caneta é uma mulher com sangue de tinta

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

A minha escrita é cada vez mais um harém de dedos dançando sem graça no teclado do computador. Cada dedo é a agulha de uma máquina de costura pregando letras, é o bico de um pássaro com fome, em vão picando, insistindo no cimento da folha.
Quando bate, a ritmo de picareta, cada dedo rouba-me o silêncio que as palavras nocturnas precisam.
As mãos são dois troncos, cada um com cinco pernadas cortantes como garras afiadas.
Os meus dedos são odaliscas magras, cortesãs ébrias tocando as teclas de um piano com almas de plástico e letras mortas.
E-mails, sites, downloads, blogs, Microsoft Word. Dou por mim a caçar o mundo todo com um rato. Alinho, justifico, centro, numero, marco, insiro, copio, colo, verifico, imprimo. Sou o general de um exército de palavras obedientes, um agricultor de maçãs envernizadas, um operário de parafusos, um comedor de sopinha de letras de pacote.
O Times New Roman, letra 12 é uma forma de ditadura.
O alfabeto começa em q e termina em m. É um esqueleto da língua, um código do vocabulário sem pés nem cabeça. Andei eu cantando letras a caminho da escola, enchi eu linhas e cadernos de abecedários com canetas pretas como se fossem bandos de estorninhos, andei eu atando, por ordem, caracteres uns aos outros com o fio da memória, para agora trocarem tudo e me obrigarem a usar a mão esquerda para escrever. Bolas, a mão esquerda era para segurar o pirolito de mel enquanto escrevia. Talvez seja por isso que o barulho das teclas da palavra amor é igual ao da palavra raiva. Talvez seja por isso que os mesmos dedos escrevem partida e escrevem chegada. Talvez seja por isso que a folha não fica mais calcada na palavra paixão. Talvez seja por isso que eu já não consigo deitar as palavras no colo quando escrevo.
Os meus dedos são homens bêbados dançando sozinhos. Dias e noites a fio.
Tenho saudades da caneta. Irei vê-la esta noite.
Acerco-me de mansinho, vou sem barulho de unhas, espreito-a no seu sono. Toco-lhe nas curvas redondas de mulher com sangue de tinta. Puxo-a ternamente para mim, deito-a na palma da mão e faço-lhe festas no corpo de metal carnudo. Com o polegar
(finalmente o polegar volta a fazer parte do processo da escrita) mexo-lhe na cabeça e ela mostra-me o seu bico – a boca da saliva das palavras. Pergunto-lhe se quer dançar e ela diz que sim. Levo-a para o princípio da folha e abraço-a. Cinjo-lhe a cintura, enlaço-a no polegar, no indicador, no pai-de-todos e dançamos num ritmo de caligrafia. Atravessamos o salão de baile, linha a linha. Volteamos numa vírgula, paramos na parede dos parágrafos, respiramos nas reticências, inclinamo-nos conforme as figuras de estilo, um toque aqui, uma perninha a mais ali, a mão esquerda segurando o mel da cintura do corpo das frases bem feitas. Tudo em silêncio. Este baile precisa de silêncio.
A caneta é a mãe dos meus filhos de papel.
Quando atravessei um mar de dúvidas, ela foi um farol de azul permanente brilhando no escuro da minha vida. Por esta colher de prata bebi a dor e a cura.
Às vezes até à última gota, até ficarmos os dois sem tinta no corpo, secos como dois amantes alarves.

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