Um poema de Torga

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Luísa Costa Hölzl

professora na Ludwig-Maximilians-Universität - Munique

<b>Natal</b>

<i>Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus…
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas…
A divindade é o menos.
</i>

Opoeta português Miguel Torga (n. 1907, S.Martinho de Anta, concelho de Sabrosa – m. 1995, Coimbra) escreveu quase todos os anos no seu <b><i>Diário </i></b>(16 volumes, de 1932 a 1993) um poema de Natal. Este é de 1966 e foi escrito em S. Martinho de Anta.
Mais uma vez Torga havia regressado ao berço da infância para aí passar a quadra natalícia. Temos uma estrofe de 14 versos que nos lembra o soneto, sem no entanto obedecer às suas regras. A rima aproxima o quarto verso do oitavo: “meditar” rima com “duvidar”, o que sublinha o conteúdo destas linhas: trata-se de uma meditação por onde perpassa a dúvida.
O eu poético começa por “ler”, isto é, por reconhecer ao virar a página desse dia (“página da noite”) o nome daquele que se festeja: Menino Deus, nome que em si contém uma oposição, sobre a qual o eu vai reflectir. Trata-se de um milagre e “milagre dobrado”, pois um nascimento em si já é qualquer coisa de milagroso, assim o viu Torga noutros poemas e em vários contos, e este é, segundo a tradição e a fé dos cristãos, o nascimento de uma criança divina.
O eu poético marca bem a sua posição, ele não é crente – “Em Deus não acredito” Aqui poderia arrumar-se o assunto, porquê e para quê festejar um milagre no qual não acredito? Mas o leitor depara-se com a pergunta: como pode o sujeito poético, como podemos nós duvidar do nascimento dum Menino? Aqui reside o paradoxo de, por um lado, não acreditar em Deus, por outro não negar completamente a Sua encarnação, a Sua humanidade, por ele representar todos os meninos por esse mundo fora nascidos em currais de gado, à margem da sociedade, logo de nascença recebidos com desdém, como intrusos num mundo que se quer cheio de sucesso, rico, luxuoso, brilhante. E vem o poeta no-lo lembrar: a festa, o ritual do Natal sublima todos os nascimentos, divinos ou não, todos eles sendo princípios de esperança. Mesmo com “horizontes pequenos”, porque nós humanos nunca conseguimos vislumbrar nada para além dos nossos próprios limites, nas crianças pomos sementes de esperança, cada recém-nascido significa uma “alvorada”, um novo dia.
A poesia, como acto criador que é, consegue milagres, junta divindade e humanidade, porque ela própria paira entre a terra e o céu. O ritual do Natal contém ele mesmo traços de humanidade e de divindade. Mesmo para os não-crentes estes dias de festa parecem fugir ao exclusivamente terreno, numa tentativa de espiritualizar aquilo que é dia-a-dia, comezinho e material. Como em muitos outros poemas de Natal, Torga capta um momento que lhe merece não um simples comentário em prosa, mas um tom lírico e uma melodia que, aos nossos ouvidos, carentes de harmonia, podem servir de consolo.

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