Um conto de Natal quase verdadeiro

Sexta-feira, 18 Dezembro, 2020

Napoleão Mira

escritor

Hoje é sábado. Um sábado de dezembro. Um sábado em que uma estúpida melancolia natalícia se apoderou de mim.
Sou um gajo de altos e baixos. Um fulano de profunda tristeza ou de exultante alegria. Um sujeito com ímpetos de cortar os pulsos à facada ou de subir ao cume de um monte e proclamar aos quatro ventos e a plenos pulmões o júbilo de estar vivo. Um tipo capaz de mergulhar em novos e arriscados projetos ou entrar em prolongada e profunda depressão. Sou assim uma espécie de oito ou oitenta: dentro de mim, em certos dias, vive Helenah, noutros Dionísio!
É nesta montanha russa de estados d’alma, neste permanente ziguezaguear de contraditórios espíritos que vou construindo o meu percurso. Bem… tudo isto para vos dizer que hoje é sábado. É sábado e apoderou-se de mim uma estúpida melancolia natalícia.
Hoje é sábado de um qualquer dia de dezembro de um século que já passou, de um ano que já não volta, mas que o calendário teima em afirmar que é 1961. Minha mãe brada por mim e pede-me para lhe ir fazer um mandado. “Vais ali à Loja Grande e trazes um cruzado de café, vais num pé e vens no outro, o tostão que sobra é de melhadura.”
Minha mãe retirara-me ao pensamento em que estava absorto e que consistia em tentar perceber se os pretos eram pessoas. Eu nunca tinha visto nenhum preto na minha vida e, no dia em que nos fomos despedir da família Cabo Silva, o patriarca Luís dissera às pessoas que aí estavam para a função do adeus que ia para África guardar pretos com um chicote, coisa que se me afigurou pouco humana, logo motivo para a dúvida permanente que de mim se apoderou.
A Loja Grande, assim chamada por ser a maior da vila, pertencia ao senhor João de Brito Palma. Aos meus olhos de petiz era um imenso caleidoscópio de mercadorias.
As prateleiras, tulhas, sacas e caixas estavam permanentemente recheadas de víveres que ao tempo se vendiam a peso ou à unidade. Ao fundo da loja, havia toda uma panóplia de artefatos que na minha fraca lembrança me dava a ideia de ser uma babilónia de riquezas dignas do maior dos Alibabás.
– Jacinto, quero um cruzado de café e um tostão de migalhas de bolacha – pedi, mostrando a moeda de cinco tostões necessária.
Jacinto saiu detrás do balcão, rasgou um quarto de folha de papel pardo, humedeceu com cuspo os dedos e, com a destreza de quem já fez milhares, enrolou mais um minúsculo cartuchinho em forma de cone que depositou na balança já com a quantidade de chicória (a que chamávamos café) que os seus afinados dedos estipulavam ser o peso certo.
Com a medideira numa mão e o olho no ponteiro da balança, deu por finda a operação, fechando o cartucho com os dedos de uma mão e jogando com a outra para dentro da lata o artefato de medir.
– Agora vamos às bolachas. – disse.
À medida que Jacinto abria a metálica e redonda tampa da caixa das bolachas, arregalavam-se-me os olhos, salivando sem parar, numa ânsia de quem está prestes a experimentar uma sensação digna de ser apreciada lenta e preferentemente de olhos fechados.
Já com os dois cartuchos na mão e fazendo menção de sair, tentei a minha sorte com uns rebuçados que me estavam a fazer crescer água na boca, e disse:
– Jacinto, dás-me um rebuçado?
– Não te posso dar rebuçados porque não são meus. – respondeu Jacinto quase, quase a ceder.
– Então dás-me dois, que eu dou-te um a ti! – respondi em manobra desconcertante que fez o jovem marçano meter a mão dentro da lata e oferecer-me a ansiada guloseima, ao mesmo tempo que punha o dedo indicador ereto sobre os lábios em sinal de cúmplice silêncio. Sorri agradecido e, já de abalada, resolvi perguntar:
– Sabes se os pretos são pessoas?
Jacinto olhou para mim, encolheu os ombros e respondeu:
– Não sei, nunca vi nenhum!
Já na rua, ao dobrar a esquina, dou com o meu amigo Manel António que logo ali me convidou para a nossa brincadeira preferida: construir casas de palha e barro, coisa que nos deixava sempre assim para o irreconhecível, ou como quem diz, cobertos de barro dos pés à cabeça.
A minha mãe, com o cartucho do café numa mão e com a outra em forma de raqueta, afirmava que, se aparecesse sujo, experimentaria a especialidade com que me ameaçava.
É claro que era impossível construir uma aldeia inteira de terra, palha e água e aparecer imaculado em casa.
Estávamos os dois muito entretidos a erguer paredes, quando lhe perguntei: “Sabes se os pretos são pessoas?”
Manel António olhou para mim espantado e respondeu ao mesmo tempo que limpava as mãos ao bibe. “Não sei, nunca vi nenhum!”
O Natal aproximava-se a passos largos e, apesar dos nossos desejos serem sempre na proporção do que nos rodeia, tanto eu como os meus irmãos lá formulámos os nossos ao Menino Jesus que religiosamente, e naquele dia, desceria pela chaminé da nossa imaginação e nos traria os presentes ansiados.
Nessa noite de 24 de dezembro fomo-nos deitar depois de mais uma vez, e à roda do lume, termos voltado a pedir ao Menino que nos contemplasse com os nossos desejos.
Pela calada da noite, quando toda a gente dormia, pareceu-me ouvir um barulho estranho vindo lá dos lados da cozinha. Cheio de medo, aventurei-me a ver o que se passava. Aterrorizado, dei com um pequeno vulto de volta dos nossos sapatos depositando uns quantos presentes.
Quando dele me abeirei, perguntei-lhe:
– Quem és tu? Tu és o Menino Jesus?
Assustado, respondeu-me que sim, mas que deveria guardar segredo, até porque ninguém iria acreditar.
– Mas tu és preto, ou estás tisnado da chaminé? – Questionei, abismado.
– Esta é mesmo a cor da minha pele, assim como a do meu pai, da minha mãe e a das outras pessoas lá de onde eu venho. – retorquiu. – Sei dessa tua inquietação. Para além da prenda que tenho para ti, o melhor presente é ficares a saber que, por debaixo da minha pele, bate um coração igual ao teu, com os mesmos sonhos e desejos e, se o mundo fosse governado por crianças, a cor da pele seria a coisa que menos importaria. – afirmou, num tom filosófico de quem detém todos os poderes do universo.
– Agora tenho de ir, mas não te esqueças do nosso segredo! – disse, voltando por artes mágicas a subir pela chaminé.
Quando minha aflita mãe me acordou aos gritos, estava eu estendido junto ao madeiro no lume, que alguém inexplicavelmente fizera com que ficasse aceso noite adentro.
Ainda estremunhado, lembrei-me do meu noctívago encontro e, enquanto minha mãe me levava ao colo de regresso à cama, abracei-a. Num súbito e compulsivo choro, supliquei-lhe: “Mãe, quando escreveres ao Cabo Silva, pede-lhe para não bater nos meninos pretos!”

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