Transgressão

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Havia ali qualquer coisa de muito estranho. Aquilo não batia certo. Aquela ultrapassagem do limite, o abuso, a incursão em terrenos proibidos, a absoluta transgressão do estabelecido não se coadunava com o equipamento preto, a rigor, decote e punhos brancos, bandeirinha na mão. Aquele ritmo frenético tinha mais a ver com um corredor de provas de velocidade do que com um fiscal de linha. Nada o detinha. Como se fosse uma vela, desfraldava a bandeirinha ao vento e aí ia ele com pernas de gazela, olhos de falcão, movimentos de leopardo. Nada o detinha. Via-se que não era homem de deixar coisas a meio. Odiava metades, coisas inacabadas, meios-termos, coisas às talhadas, empreitadas não terminadas. Era uma criatura da totalidade, do absoluto, de jornadas completas. Só parava quando o trabalho estivesse feito. Linha é linha, conhaque é conhaque. E a linha lateral de um campo de futebol é um todo. Assim o quis o carrinho da cal.
Poucos repararam da primeira vez que a linha divisória do campo não o susteve. Mesmo os que o notaram terão pensado que terá havido uma distracção, um lapso, embalagem a mais. A segunda vez, já acompanhada dos primeiros risos e assobios, traduziu-se por um pique de área a área, corrida de costa a costa, bilhete de ida e volta. Quanto mais o público batia palmas e ria, mais ele corria, inebriado, animado por tanta motivação. O pior foi a coordenação com o árbitro. Às tantas já o juiz tinha duas decisões diferentes para a mesma jogada. Fiscais de linha frente a frente, um de bandeirola levantada, outro a mandar seguir a jogada. De outras vezes o árbitro procurava o fiscal numa ponta do campo e ele já estava na outra. A sorte é que vieram dois, pois se tem vindo sozinho o homem abarcava o rectângulo todo.
Incomodado com tanta correria e atitudes tão pouco abonatórias para a dignidade da arbitragem, o árbitro teve de intervir. Dirigiu-se àquela entidade omnipresente e através dos seus gestos percebemos que lhe explicava que mandavam as regras que os fiscais de linha não penetrassem a outra parte do campo, que mesmo que o desejo fosse muito deviam manter virgem o resto da lateral. Apanhado de surpresa, talvez envergonhado pela alarvidade, o homem esmoreceu, cansou-se de repente. A bandeirola era agora um tronco, um mastro com um pedaço de pano branco na ponta a pedir rendição. Roubaram-lhe metade do campo, cinquenta metros de liberdade. Não se faz.
Quando o jogo acabou, fui ter com o árbitro e comentei a originalidade da situação. E ele lá me disse que um dos habituais fiscais de linha tinha ficado de cama e que quando foi almoçar, antes de vir para o jogo, conseguiu convencer um moço que ele conhecia a fazer de auxiliar. Por entre uma entrada de orelha assada, entrecosto grelhado, salada de agriões, pão caseiro e dois jarros de vinho de Pias, o nomeado recebeu um curso intensivo de árbitro de hora e meia.
Mais em pormenor ficou a saber-se que durante o curso foram ensaiados em cima da mesa corrida os princípios básicos da função de fiscal de linha. Para não estar fora de jogo a côdea de pão tem de ter pelo menos o copo e o prato entre ela e a ponta da mesa. Se o rábano atrasar a bola ao garfo e este a agarrar com a mão, é falta. Mais o guardanapo isto e aquilo, as azeitonas isso e aqueloutro, o entrecosto assim e assado. Tudo ensaiado, tudo bem oleado com azeite de Moura.
Mas algo falhou. É que o jarro de vinho estava numa ponta do campo e cada vez que queria um copo, o nomeado tinha de se levantar e correr a linha toda até lá chegar. E nunca foi impedido pelo árbitro.

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