Trabalho e paz desceram à rua

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Alberto Matos

dirigente do BE

Novembro de 2010 fica assinalado na história da luta social por dois acontecimentos marcantes: a greve geral e a grande manifestação contra a cimeira da NATO em Lisboa.
No dia 24 de Novembro teve lugar a maior greve jamais realizada em Portugal, com a adesão de mais de três milhões de assalariados e a participação das duas centrais sindicais – CGTP e UGT – e de dezenas de sindicatos independentes. A greve geral teve o apoio e a simpatia de outros milhões que não puderam participar directamente: desde precários e falsos trabalhadores independentes ao pequeno comércio que é afectado pela quebra brutal do poder de compra.
Trata-se de uma primeira resposta massiva ao maior desastre social das últimas décadas, consagrado por PS e PSD nos sucessivos PEC e no Orçamento apadrinhado por Cavaco Silva. A insensibilidade do Governo e dos seus parceiros “laranja” face aos sinais da greve geral anunciam um ano de 2011 bem pior do que o que está prestes a chegar ao fim, com ou sem FMI.
A greve geral e as manifestações marcadas para 15 de Dezembro pela CGTP são apenas um prenúncio do que 2011 nos trará em termos de luta social.
A 19 e 20 de Novembro, a cimeira da NATO reuniu dezenas de chefes de Estado em Lisboa: Obama e os diversos líderes europeus, o presidente russo Mevdevev e até Karzai, o senhor da guerra e do narcotráfico que a NATO colocou e mantém no poder no Afeganistão.
Depois da “Cimeira da Mentira dos Açores”, que antecedeu a invasão e a tragédia do Iraque, o povo português tinha razões fortes para se manifestar contra a nova “Cimeira da Guerra”, em Lisboa,
O principal ponto da agenda foi a reformulação do conceito estratégico da NATO. Duas décadas após o fim da “guerra fria” e da dissolução do Pacto de Varsóvia, sem inimigo visível, a NATO precisava de legitimar a intervenção em qualquer parte do mundo, muito para além do chamado “hemisfério ocidental”.
Daí a parceria em preparação com a Rússia, a qual poderá estender-se a outros sócios, incluindo a China que se assume cada vez mais como o grande financiador do capitalismo global. Esta “santa aliança” que já provocou mais de um milhão de mortos no Iraque e centenas de milhar no Afeganistão, só poderá originar maiores desgraças para a humanidade. Além de um gigantesco desperdício, a guerra continua a ser um negócio fabuloso para uns poucos.
Ao arrogar-se o direito de intervir em qualquer ponto e num âmbito tão vasto que inclui as ameaças terroristas, os ataques cibernéticos e as catástrofes ambientais, a NATO apresenta-se como o escudo imperial e um actor global.
Este novo conceito estratégico entra em conflito insanável com o papel oficialmente reservado à ONU e consagra uma grosseira violação da legalidade internacional. Para disfarçar o seu carácter belicista, o documento orientador da cimeira de Lisboa apresente a NATO como “o músculo e a espinha dorsal das democracias”… Melhor dito, a hérnia discal da democracia!
E o Governo português prestou-se ao triste papel de mordomo dos senhores da guerra: imitando Aznar em 2003, suspendeu a livre circulação europeia e mandou para trás um autocarro de finlandeses que cometeram o “crime” de percorrer mais de quatro mil quilómetros com cartazes subversivos contra a NATO!
Os famosos blindados não chegaram a horas, mas lá facturaram uns milhões e alguma serventia se lhes há-de dar, seja para rusgas em “bairros problemáticos” ou no próximo Benfica-Porto…
Não se deixando levar pelo espectáculo da cimeira nem intimidar por ameaças e provocações, milhares e milhares de manifestantes fizeram sua a nossa Avenida da Liberdade, gritando sem medo: “NATO fora de Portugal e Portugal fora da NATO!”

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