Todos nós somos Abéis e Caíns

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Onofre Varela

jornalista / cartunista

<i> “Criticar os costumes dos Homens sem atacar ninguém em particular, será, realmente, morder? Não será antes o desejo de ensinar ou aconselhar? Além disso, quantas vezes me tenho criticado a mim próprio? Uma sátira que não poupa nenhuma das condições humanas não pretende atacar homem algum em particular, mas sim os vícios de todos. Se alguém se ergue a gritar que foi ofendido, confessa que se sente culpado, ou, pelo menos, que em segredo se inquieta”. </i>

Erasmo de Roterdão,
in <b><i>Elogio da Loucura</i></b>

O tema “religião” é delicado, principalmente quando abordado sob o ponto de vista de quem não alinha em credos religiosos. Corre-se sempre o risco de levar os crentes a sentirem-se ofendidos na sua fé. Isto acontece invariavelmente, por muito cuidado que se tenha na escolha das palavras e por muito que se repita que a intenção primeira não é beliscar religiosidades, mas reflectir sobre a fenomenologia que conduziu o raciocínio do ser humano para a criação dos deuses, e de como tal prática acabou por gerar e desenvolver culturas, sistemas de organização política e social, e fomentar uma indústria e um comércio da religião e da fé, aprisionando consciências.
Neste Ocidente democrático e civilizado, o respeito pelas crenças não impede a expressão crítica. Era só o que faltava obrigarmo-nos ao silenciamento e à auto-censura para não ferirmos sensibilidades tão susceptíveis de rotura, só porque os clérigos estão (mal) habituados à ditatorial proibição da abordagem de temas que eles consideram intocáveis e propriedade sua, como acontece com a Bíblia (que não é pertença do Vaticano mas Património da Humanidade), da qual não aceitam leitura diversa daquela que a Igreja difunde formatada de acordo com os seus interesses. Respeitemos mas opinemos.
Um ateu não é mais do que um crítico das religiões, tal como um crítico cinematográfico, ou literário, critica cinema ou literatura sem se obrigar a filmar e a escrever. Se a religiosidade de cada um é coisa sagrada, a liberdade de expressão é, também, igualmente sagrada. Nem o ateu, nem o religioso são donos da verdade. Nas suas deambulações filosóficas sobre o conceito civilizacional designado Deus, o ateu pode chegar a conclusões tão certas, ou tão erradas, quão certos ou errados estão os que acreditam na intervenção de uma divindade no destino dos homens… porque errare humanun est. Não há infalíbilidades em questões filosóficas e muito menos nos discursos religiosos. Todos nós, incluindo o Papa, emitimos opiniões que podem ser tão certas como certo é a chuva molhar, ou tão falíveis quanto o Orçamento Geral do Estado.
Há (e é muito bom que haja) um pensamento à margem do “politicamente-instituído-como-correcto”, que resulta da observação crítica e do constante questionamento daquilo que nos é mostrado como bem e certo, mas no que se pode detectar algum mal ou erro, e daí nasce a polémica. Todas as polémicas são necessárias e úteis, mas tornam-se desinteressantes quando aquilo que as motiva não é mais do que paixão desmedida. Todos nós sabemos, por experiências vividas na juventude, que as paixões, em regra, são muito emotivas, pouco racionais, e habitualmente têm um prazo de validade curtíssimo… tal como o iogurte e os ovos moles.
O tema Deus é interessante, absorvente, e por isso pode cair na teia das paixões empoladas, terreno onde se corre o risco de se não encontrar uma porta racional por onde se entre ou saia com dignidade e elevação intelectual e moral. A paixão é como o vinho: ou se consome com regra, moderação e racionalidade, usofruindo do prazer que a bebida produz, ou se emborca sem medida até à bebedeira total, correndo-se o risco de tomar atitudes nada dignificantes.
A Bíblia tem muito peso na formação dos povos ocidentais porque todos nós fomos educados nos seus preceitos. É um conjunto de registos contendo algumas narrativas históricas à mistura com conselhos práticos, leis sociais, regras de comportamento e de higiene, poesia, conflito, crimes de vária índole, muita ficção, e fabulosas estórias para a implementação da também fabulosa ideia do monoteísmo. A difusão de tal ideia pertence aos hebreus, e foi verdadeiramente revolucionária para o tempo em que existia um deus para cada hora do dia! O povo hebreu criou o conceito de um só deus, com o valor de todos os outros, condensado e em versão single. Tal ideia foi iniciada por Abraão, e ao longo de mais de 1.500 anos de História acabou sendo imposta por Judeus, Cristãos e Muçulmanos como Verdade Universal a ser atendida por todos com muito temor e adoração desmedida. Mas a verdade é que o valor histórico dos textos bíblicos onde a ideia é registada, é muito relativo e não inteiramente fiável.
Na existência real de um deus, e na sua intervenção junto dos Homens, é que reside a questão, porque tal coisa não tem substância, não é credível à luz de qualquer lei física, e só pode ser afirmada pela fé, a qual não tem qualquer valor para além dela mesma.
O estudo sério, histórico e arqueológico, das narrativas bíblicas é recente. Foi em 1843 que o arqueólogo francês Paul Émile Botta, escavando em Korsabad, na Mesopotâmia, encontrou baixos relevos com inscrições descrevendo as campanhas do rei assírio Sargão II contra o reino de Israel na conquista de Samarina, tal como na Bíblia é referido (Isaías, 20). Só desde então os textos bíblicos saíram da incógnita de mosteiros e sacristias para serem estudados por cientistas de vários ramos da ciência. Mercê destas consequentes novas interpretações dos textos ditos sagrados, e de outras leituras por credos não católicos, a Igreja reagiu, recentemente (7 de Outubro de 2008), através do cardeal canadense Marc Ouellet, relator geral do sínodo dos bispos, solicitando ao papa uma encíclica sobre “a interpretação das Escrituras, por haver muitas divergências interpretativas” e algumas delas “divergirem da visão que o Magistério do Papa e dos bispos oferecem sobre a Bíblia”!… Como que se o papa fosse o autor das Escrituras, ou tivesse procuração dos seus escribas, ou a exclusividade dos direitos universais para a sua interpretação!…
Obviamente que a proposta não é ingénua. Ela pretende que a Bíblia deixe de ser interpretada nos meios científicos “apenas sob o ponto de vista académico, pois a Palavra de Deus penetra em todas as dimensões da pessoa”, e legitime, assim, as interpretações de fé colocando-as ao mesmo nível dos estudos científicos!… O que não passa de uma esperteza saloia cardinalícia.
É evidente que o estudo de tais matérias deve ser deixado a cargo de especialistas formados nos diversos ramos da ciência inerentes à tarefa da interpretação dos textos bíblicos enquanto objecto arqueológico e documento testemunhal da evolução do pensamento, e não apenas aos teólogos que funcionam como advogados de defesa em causa própria.
Dito isto, e terminando esta minha reflexão, em verdade vos digo: todos nós, incluindo o escritor e Prémio Nobel José Saramago, somos livres de aproveitar esta porta aberta por Marc Ouellet — que pretende aferir, paralelamente à ciência neutra e conclusiva, os entendimentos religiosos —, para também entrarmos por ela e fazermos a nossa interpretação pessoal da Bíblia, cuja liberdade foi legalizada pelo cardeal (embora não precisassemos dela para o fazermos)!
Nesse sentido, direi que Abel e Caím protagonizam, metaforicamente, um exemplo ilustrativo do natural e humano espírito de inveja e ciúme — que nos retrata a todos, sem excepção —, e que também pode configurar um tipo de crime com motivações económicas, já que Caím matou o irmão Abel por interesses relacionados com as partilhas da terra e do gado.
Entenda-se: se, pela fé, a um religioso é dada legitimidade para interpretar os textos bíblicos de acordo com o seu entendimento místico, divorciado das interpretações históricas e científicas, então todos nós podemos reivindicar a mesma legitimidade de interpretar os mesmos textos baseando-nos no raciocínio de ateu, de agnóstico, ou de, simplesmente, curioso, divorciado de todas as interpretações de fé que, como se sabe, só têm valor (e muito relativo) no seio das respectivas crenças. Para além do mais, note-se que aquele que lê a Bíblia apenas pelo prisma da crença religiosa… na verdade não sabe nada da Bíblia!… simplesmente porque crer não é saber.

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