Tempos de Mudança

Sexta-feira, 18 Novembro, 2022

Napoleão Mira

Escritor

“E se todo o mundo é composto de mudança, troquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança.”

Dizia o nosso poeta maior, Camões, no seu soneto: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Sim, porque o mundo está numa perigosa mudança e é urgente trocarmos-lhe as voltas se quisermos que os nossos netos nele continuem a habitar.
Desde 1972, em Estocolmo, que nas diferentes cimeiras os cientistas alertam para o perigo das alterações climáticas.
Seguiram-se-lhe outras conferencias mundiais com destaque para Berlim, Kyoto, Paris ou Glasgow e, agora, no Egito, com acordos assinados e promessas juradas para travar as emissões de carbono e outros gases com efeitos de estufa na atmosfera.
Os países industrializados e outros em vias disso dizem que sim, que vão proceder às alterações assumidas, mas o que vemos é uma cada vez maior poluição da terra, mares e ares, sem se importarem com o destino do planeta que, curiosamente, também é a sua casa, logo, também a eles deveria dizer respeito.
António Guterres – secretário-geral das Nações Unidas – não se cansa de lançar dramáticos apelos onde quer que seja levado a falar sobre o tema.
Para exemplificar, e para que seja entendível pelo comum dos mortais, chega a brindar-nos frases como estas: “Estamos numa autoestrada rumo ao inferno, com o pé no acelerador”, “Chega de tratar a natureza como latrina, chega de nos matar com carbono”.
O homem é cáustico, esbraceja, alerta, pede, implora, mas parece que os proveitos imediatos do voto e do lucro falam mais alto que os superiores interesses da vida no planeta.
Dizem agora os especialistas, e para que possamos acordar de vez para o problema, que só na Europa nos próximos anos morrerão mais 90.000 pessoas do que o habitual e apenas devido às ondas de calor!
É por isso que entendo os jovens ativistas climáticos que invadem museus; que fecham estradas; que ocupam escolas; que se manifestam nas ruas e praças das nossas cidades e gritam a plenos pulmões que só temos um planeta.
É uma chamada de atenção, um apelo desesperado àqueles que sendo quem tem as ferramentas para mudar este paradigma, se continuam a fechar em copas e a chegar em jatos privados a estas mesmas cimeiras.
Há uns anos, quando passei por Nova Deli, esta já não era Nova mas sim uma velha e carcumida metrópole, com os seus vinte milhões de habitantes; uns à espera do seu cancro do pulmão, outros jogando na lotaria da infeção respiratória.
Aquele chapéu de chumbo sobre a grande cidade não augurava nada de bom.
Só agora, passados seis anos, é que ouço uns murmúrios da sociedade indiana pedindo novas políticas ao seu governo. Muito provavelmente demasiado tarde para se poder reparar.
Dou este exemplo, mas sei que cada um dos meus leitores terá o seu. Rios e lagos que secam. Barragens em agonia de captação de água. Epidemias, pragas e doenças. Matas, florestas e campos que ardem. Colheitas que não vingam. Peixes que morrem aos milhões e muitos de nós… nem o lixo reciclamos!
Se comecei com um poeta, termino com outro, José de Almada Negreiros, que na sua Cena do Ódio, a certa altura, reflete deste modo: Há tanta coisa para fazer meus Deus e esta gente distraída em guerras!

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