Temos de nascer duas vezes

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

As eleições do último domingo, que deram a vitória à abstenção, constituíram um período medíocre e feio deste cada vez mais pobre país. E pela primeira vez que me lembre, quem festejou foi o concorrente segundo classificado, se calhar o único português honesto do burgo, que parece ter já nascido assim e à primeira. Todos nós para nascermos como ele teremos de o fazer duas vezes. E eu se puder vou fazê-lo, a ver se tenho a sorte de comprar acções fora do mercado a um euro e vendê-las depois com 140% de lucro. E de caminho, a minha filha, se a tiver, também entra na negociata com igual lucro. E espero também poder adquirir uma luxuosa casa de férias sem ter de me lembrar onde fiz a escritura (coisa de somenos), ali para os lados do BPN/SLN. E não deixarei de acusar de “vil baixeza” a quem puser em causa a minha honorabilidade. Porque quem o fizer terá de nascer duas vezes para parecer aquilo que eu pareço, que é o que parece que eles não parecem, como diria o poeta António Nobre.
Depois de ouvir aqueles discursos ressabiados e o cacarejar daquela galinha choca do Paulo Portas, dei por mim a lembrar para que serviu afinal o 25 de Abril?
Em 1974 eu estava em Coimbra, era um estudante generoso como todos, tinha tido dois irmãos a combater na guerra colonial e fui para a rua festejar no meio daquele mar de gente, clamando o fim da opressão, pela liberdade e pela justiça social. Como outros povos no Chile, nalguns países do Leste Europeu e nos últimos dias na Tunísia. Milhões de pessoas nas ruas sonhando um futuro melhor.
Afinal, em Portugal para que serviram os 36 anos de liberdade e democracia? Temos uma sociedade mais justa? Vivemos melhor?
A resposta é amarga. Algo está mal nestas democracias, onde o povo vive de crise em crise e a classe política se enche de regalias e reformas, enquanto fomenta as empresas públicas onde os gestores que vão ser eles no futuro se atribuem salários obscenos de 400 e 500 mil euros por mês, popós topo de gama e prémios chorudos, que são uma vergonha, mas florescem como coelhos.
E ainda mais fundações e institutos aos milhares, que devoram o dinheiro dos nossos impostos, que ainda tem de suportar 29.000 viaturas oficiais que gastam mais de 50 milhões em combustível por ano. Os países ricos da Europa não permitem estas regalias/obscenidades.
De facto, e quase sem darmos por ela, vivemos num país onde a classe política montou, sob a capa da democracia, um organigrama de interesses, onde os mesmos ganham cada vez mais, o pequeno comércio vai desaparecendo e os jovens não encontram o primeiro emprego, com excepção dos filhos da classe política e gestores empresariais.
Foram certamente estes jovens sem emprego e todos aqueles que perdem poder de compra de crise em crise que não foram votar no domingo e ganharam as eleições com o seu grito de revolta. Num país onde os gestores da Telecom antecipam os juros de 2011 para 2010 para os poderosos não pagarem impostos ao Estado, enquanto os reformados começam a pagar sobre as reformas. Num país onde três gestores da Gebalis puderam gastar milhares de euros em almoços e jantares e compras pessoais com o dinheiro de todos nós (vão ser julgados em Outubro fora os adiamentos, até ao esquecimento final). Num país onde centenas de gestores têm direito a popó do Estado, cartão de crédito, prémio de gestão (seja boa ou má) e horário flexível, ao contrário de muitos países mais ricos do que nós.
PS e PSD são responsáveis por este atoleiro sorvedouro dos dinheiros públicos. Despesas que ninguém corta, mas também são responsáveis pelo tão propalado défice. Em Portugal, toda a gente se habituou a viver acima das nossas possibilidades, mas principalmente a classe política e a classe dos gestores. E começamos a compreender que os sucessivos empréstimos que o país faz no exterior são certamente mais para manter as mordomias dos que mais ganham do que para os pequenos ordenados dos que ganham sem ganhar.
Somos assim peças menores ao sabor dos mercados, que mandam na Europa do senhor Barroso e que de empréstimo em empréstimo nos vão comprando o que resta do país, a preço de saldo.
Nada disto nos disseram os candidatos. Cavaco desceu o discurso quando ameaçou que a segunda volta ia agravar os juros da dívida. Alegre percebeu agora que é mais fácil o caminho do PS até ao Bloco, do que fazer o caminho de volta. O sr. Lopes, da “única candidatura de esquerda”, nunca vai perceber como é que tanta arruada e tantos trabalhadores só dão 7% de votos, enquanto Nobre teve 14% (o dobro) sem fazer barulho de rua, nem ter uma “campanha crescente” de adesão popular. O sr. Coelho ganhou no Funchal ao sr. Silva, como lhe chamou o Padrinho daquelas bandas. O Defensor foi uma figura regional e simpática
Nós, todos nós pelo país, vamos continuar de crise em crise. Em Lisboa, alguns figurões da política vão continuar de conselho de administração em conselho de administração, como vogais não executivos, a sacar milhares de euros em presenças e regalias, enquanto os mercados nos mandarem dinheiro. Dinheiro que os poderosos vão depositando nas off-shores, de que os mercados não se queixam e a Europa vai tolerando. De uma das off-shore, situada no Lichenstein, recebeu Portugal uma listagem dos nacionais que lá têm dinheiro. Porque não publicar os nomes desses patriotas?
Mas para além de tudo isto que nos enoja, resta-nos a esperança que em vez de irmos pedir dinheiro aos mercados, alguém nos obrigue a viver apenas com aquilo que temos.

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